quinta-feira, 27 de abril de 2017

Indivisiveis

"Indivisíbli", de Edoardo De Angelis (2016) Excelente drama italiano, que me remeteu bastante aos filmes neo-realistas, por ser filmado em locações pobres de Nápoles e com um tema social tão profundo. No entanto, existe um elemento quase de Tim Burton nesse estranho filme, um grande pesadelo embalado como se fosse um sonho. 2 irmãs siamesas ( as excelentes Angela e Marianna Fontana, em tour de force emocionante) vivem com seus pais em uma comunidade pobre na beira da praia de Nápoles, em um bairro de miseráveis. O pai é um jogador viciado, e compõe músicas para que suas filhas cantem em festas decadentes. A mãe é viciada em drogas. As irmãs, que atingiram 18 anos, cantam e são apresentadas como atração freak nos eventos. Um dia, ao conhecer um cafetão, uma das irmãs, Dayse, revela o desejo de se separar de sua outra irmã. Para piorar a situação, surge um cirurgião, dizendo que é capaz de separar as duas irmãs, sem prejuízo para nenhuma delas. Porem, tanto os pais das gêmeas, quanto a igreja, repudiam essa cirurgia, pois percebem que deixarão de explorar o dinheiro que elas lhes proporciona. Intenso, comovente, bizarro, lúdico...esse filme trouxe sensações bem estranhas enquanto eu o assistia. A extraordinária fotografia de Ferran Paredes, aliado as locações estonteantes, dão uma atmosfera muito próxima a pinturas expressionistas. Trágico, o destino dessas irmãs e' bastante cruel. Um filme que fala sobre a exploração em todos os níveis: social, sexual, económico e bullying. Um filme arrebatador, que provoca revolta, pela extrema vilania de alguns personagens ( bem ao gosto de novelas melodramáticas) , mas que faz o espectador torcer bastante pelas heroínas. Algumas cenas são antológicas, como por ex, quando elas se apresentam para um conjunto habitacional frequentado por traficantes e prostitutas decadentes. Com ótima direção, o filme conquistou inúmeros prêmios em Festivais de cinema, entre eles, o de Veneza em 2016.

Guardiões da Galáxia Vol 2

"Guardians of the Galaxy Vol 2 2", de James Gunn (2017) Dirigido e escrito por James Gunn, essa parte 2 do filme de grande sucesso descobriu a formula deliciosa de incorporar uma trilha sonora repleta de hits esquecidos dos anos 80 `as cenas de ação e de dramaticidade. Sim, tem drama nesse filme, aliás, muito drama. No fundo, o tema "familia" aparece em todos os núcleos de personagens. E' impressionante como James Gunn criou uma ciranda de discussões acerca de parentes ( pais, filhos, irmãos) que emociona o espectador, principalmente na cena final. Eu amo personagens bidimensionais, que mostram humanidade, e aqui no filme, está repleto deles. Não há muito o que falar do filme, pois todo mundo já o disse: elenco foda, direção foda, trilha foda, cenas de ação foda...e sim, a estética anos 80., desde os letreiros iniciais, homenageando todas aquelas series e filmes B de uma época onde a gente era realmente feliz. Participações especiais de Sylvester Stallone, Michelle Yeoh, entre outros. Mas a grande cereja do bolo, além de Kurt Russel, é a presença de Michael Rooker, um ator excepcional, que quase sempre fez escada para todo mundo, e na maioria das vezes no papel do vilão, fazendo um personagem digno, emocionante. Antológico.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Quando estou amando

"Quand j'étais chanteur", de Xavier Giannoli (2006) Drama dirigido pelo mesmo Cineasta de "Marguerite", versão francesa de "Florence:Quem é essa mulher?", Xavier Giannoli. "Quando estou amando" conseguiu o grande feito de ter sido selecionado para a Competição Oficial em Cannes 2006. E' um filme simples, sobre personagens simples, mas que fala ao coração. O filme não levou nenhum prêmio em Cannes, apesar da soberba atuação de Gerard Depardieu, mas levou o de melhor Trilha sonora no Cesar. A historia não poderia ser mais corriqueira em um romance melancólico: Um homem de meia idade e decadente canta em Bailes para terceira idade em Clermont Ferrand. em um desses bailes, Alain Moreau (Depardieu) conhece Marion (Cecile de France), uma corretora de imóveis que trabalha para Bruno (Mathieu Amalric). Os dois passam uma noite juntos, apesar da grande diferença de idade. No dia seguinte, Marion vai embora ao acordar. Alain está apaixonado, mas Marion não quer nada com ele. Para se aproximar dela, Alain diz que quer comprar um apartamento novo. Marion aos poucos vai cedendo aos encantos desse homem tão diferente de tudo o que ela queria. A grande forca desse filme, alem do trabalho dos 2 atores principais, é o charme vintage dos bailes de terceira idade, com músicas extremamente românticas, fora de moda ( algo meio Manolo Otero). Os diálogos são bons e no geral, fala sobre a solidão de personagens sem muita esperança em um futuro melhor. Nesse encontro de corações vazios, o filme explora bem a melancolia. Para ser melhor, o filme tinha que ter meia hora a menos. Um filme desses ter quase 2 horas, é demais. Ficou cansativo e o ritmo é bastante arrastado.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Joaquim

"Joaquim", de Marcelo Gomes (2017) Todo mundo sabe que "Joaquim" foi o filme brasileiro que competiu no Festival de Berlin 2017. Todo mundo também sabe que o filme narra a trajetória de Joaquim José da Silva Xavier, dentista e alferes, a serviço do Governo de Portugal, tudo antes de ter se rebelado e se unido aos Inconfidentes em Minas Gerais. A história acontece no final do Sec XVIII, e já começa com a narração de José da Silva Xavier, Tiradentes, morto, dizendo que ele foi o único sacrificado, decapitado e esquartejado do grupo. Com esse grande lamento, e o peso de ter se tornado mártir, o filme começa. Mostra um homem comum, que é amante de uma escrava, cobiça o ouro dos garimpos e de certa forma, mau caráter. Mas tudo muda quando ele é sequestrado por escravos fugitivos de um quilombo e toma a dimensão da importância do engajamento contra a corrupção e a ladroagem. Não, o filme não se passa em pleno Sex XXI. Como falei, acontece no fim do Sec XVIII. Mas é justamente essa a proposta de Marcelo Gomes. Mostrar que o Brasil continua o mesmo, e é preciso que as minorias (negras, indígenas, o povo) se rebelem contra o sistemas corrupto que se instalou no Pais. Dando voz e corpo a Tiradentes, Julio Machado tem uma performance monstruosa, visceral. O roteiro tem um vocabulário adaptado aos dias de hoje, para não provocar estranhamento no espectador. Caralho, filho da puta, todos os palavrões modernos são ditos ad infinitum pelos personagens. A fotografia de Pierre de Kerchove é linda, valorizando as paisagens deslumbrantes. O único senão é o ritmo extremamente lento do filme, que dificulta um melhor acompanhamento da história.

O Silêncio

"Sokout", de Mohsen Makhmalbaf (1998) Dirigido e escrito pelo famoso Cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf, o filme foi rodado durante o seu exílio politico fora do Irã, no Tadjiquistão. Nesse exótico Pais, que faz limite com China, Afeganistão e Uzbequistão, as convenções sociais da mulher são menos rigorosas que no Irã, e as roupas são muito coloridas. "O Silencio" foi concebido por Makhmalbaf através de lembranças de sua infância, quando ele morava com sua avó. Ela o proibia de escutar musicas na rua, e pedia para que ele colocasse os dedos nos ouvidos para não ser tentado pela beleza da música, que segundo a avó dele, era o caminho para o inferno. Com essa premissa, ele criou a história de Khorshid, um menino de 10 anos, cego, mas apaixonado pela música. Ele aprimorou a sua audição e por isso, trabalha em uma loja que afina instrumentos musicais. O proprietário da casa onde Khorshid mora com sua mas está querendo expulsá-los caso eles não paguem o aluguel em 5 dias ( o pai de Khorshid foi para a Russia e nunca mais voltou). A mãe de Khorshid pede para que o filho consiga dinheiro através do seu trabalho. No entanto, todos os dias, Khorshid chega atrasado no trabalho, pois ele acaba se distraindo com o som vindo de um instrumento tocado por um músico na rua, o que acaba provocando a sua demissão. Com imagens extremamente poéticas e belas, "O Silencio" é uma obra-prima, com um extraordinário trabalho de edição de som. Makhmalbaph dirige seus não-atores de forma naturalista, prática comum em filmes iranianos, onde boa parte dos atores não expressa emoção alguma nas falas. Os enquadramentos estilizados e publicitários suscitaram vaias quando exibido em Veneza ( de onde saiu com 3 prêmios). Makhmalbaph foi acusado de se vender a uma estética em prol de conteúdo. Um absurdo essa acusação, e passados quase 20 anos da realização do filme, ele continua poderoso em suas imagens e registro sonoro. Obrigatório para estudantes de cinema. O pequeno Tahmineh Normatova, que interpreta Korshid, e Nadereh Abdelahyeva, no papel de sua amiga Nadareh, tem uma beleza incomum e são extremamente carismáticos. A cena de Nadareh usando pétalas de flores para criar unhas coloridas em suas mãos é um primor.

domingo, 23 de abril de 2017

Uma noite

"One night", de Minhal Baig (2016) Dirigido e escrito pela cineasta Minhal Baig, "Uma noite" é um drama romântico independente totalmente rodado em Los Angeles, e se passa todo em uma noite. Dois casais, um Pós adolescente e outro na faixa dos 30, procuram se reconectar/conectar diante da dificuldade de lidar com a verdade do relacionamento. Os diálogos são ótimos e recomendo aos atores que querem fazer cenas de casais que peguem trechos do filme. Não tem nada de novelesco nem falam de aborto ou gravidez, aquelas chatices que todo ator usa em vídeobook. O filme é uma espécie de homenagem a trilogia de Richard Linklater, "Antes do entardecer", com uma proposta maravilhosa: imaginem se Jesse e Celine pudessem se ver no outro casal mais jovem, e pudessem rever tudo o que fizeram de errado para poder seguir sua vida baseada apenas na compreensão e na felicidade? Melancólico, lírico, tem bela atuação dos quatro atores desconhecidos. Um pequeno belo filme, que eleva nossa alma e na crença no ser humano. Direção sensível de Minhal Baig.

sábado, 22 de abril de 2017

Evolução

"Evolution",de Lucile Hadzihalilovic (2015) Curiosa fábula de ficção cientifica, muito semelhante ao filme fantástico de Gore Verbisnky, " A cura". Cm visual estonteante, todo ambientado em uma Ilha mágica, o filme, dirigido e escrito por Lucile Hadzihalilovic, foi livremente inspirado em "A ilha de Dr Moureau", obra clássica da literatura de horror, que tem como tema, experiências genéticas com a finalidade de criar figuras mutantes. Nessa ilha, habitam apenas mulheres adultas e meninos na faixa dos 10 anos de idade. Nicolas, durante um mergulho, cisma que viu um menino de sua idade afogado. Ao reportar `a sua mãe, encontra nela indiferença, achando que foi uma alucinação dele. Ao tentar descobrir a verdade, Nicolas se revela uma ameaça para a paz do local, e é levado até um hospital. Lá, ele encontra outro meninos como ele, e entende que eles fazem parte de experiências genéticas que envolve as estranhas mulheres do lugar. Vencedor de mais de 5 prêmios em Festivais de Cinema Fantástico, o filme surpreende pelo visual, fotografia e o trabalho dos meninos, além da caracterização assustadora das mulheres, e belas imagens subaquáticas. A narrativa, em ritmo lento, seduz, mas não é um filme fácil para o grande público, mesmo porque a sua historia é bem complexa. Confesso que fiquei um pouco perdido no final. Curiosidade: Lucile Hadzihalilovic vem a ser esposa do Cineasta Gaspar Noe, de "Love" e " Irreversível".

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Vida

"Life", de Daniel Espinosa (2017) Os roteiristas mesclaram "Alien" e "Gravidade" e criaram esse híbrido chamado "Vida", um péssimo título que não vende o potencial do filme. Escalando ótimos atores como Jake Gylenhaal e Ryan Gosling, o cineasta sueco Daniel Spinosa não soube aproveitar o talento deles. Podia ser qualquer ator ali no papel dos dois que não faria a mínima diferença, eles estão totalmente no automático, o que é uma pena. Eu queria muito ter gostado do filme, mas o roteiro não ajuda, fazendo com que todos os personagens tomem atitudes ridículas quando em perigo. Rebecca Ferguson, atriz sueca que começou com filmes autorais e foi adentrando o universo dos blockbusters, também tenta imprimir a personalidade da Tenente Ripley de Sigourney Weaver na sua personagem, infelizmente sem sucesso. Resta abstrair a lógica e curtir os efeitos especiais e um final a la Shayamalan. Todo mundo diz que esse filme seria um prequel do vilão "Venom" da Marvel, antagonista do Homem Aranha. Será?

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sam esteve aqui

"Sam was here", de Christopher Deroo (2016) Co- produção França/Estados Unidos, "Sam esteve aqui" é um thriller psicológico de horror. Imaginem uma mistura de David Lynch e Wes Craven? Pois foi essa a sensação que eu tive ao assistir ao filme. Muita bizarrice, surrealismo mesclado a uma trama muito comum nos anos 70, a de filmes de quadrilha de sádicos. Sam é um vendedor que percorre a região do Deserto de Mojave, na California, para bater de porta em porta e vender seus produtos. Para a sua surpresa, não tem ninguém em nenhuma das casas. Sam liga para sua casa e sua esposa e filha não atendem. De repente, ele avista no horizonte uma estranha luz avermelhada. A partir daí, fatos estranhos acontecem: Pessoas mascaradas surgem querendo matá-lo, enquanto um radialista o acusa de seu um serial killer que mata crianças da região. Eu poderia citar 2 filmes clássicos dos anos 70 que provavelmente foram usados como referencia para esse filme: " O homem de palha" e "Encurralado". Sao filmes de um anti-herói, que não entende o que está acontecendo. O problema, é que nem o espectador entende. O diretor e roteirista Christopher Deroo deixou todas as pistas para uma possível resolução em aberto. O espectador que entenda o que quiser. Por conta disso, o filme torna-se muito insatisfatório. Nada contra finais em aberto, mas aqui, deixou-se muito a desejar. O filme tem uma atmosfera anos 80, com a clássica trilha repleta de sintetizadores. O ator Rusty Joiner faz o que pode no papel principal, e até faz bem, levando-se em consideração que ele passa praticamente o filme todo sozinho.

Peles

"Pieles", de Eduardo Casanova (2016) O jovem cineasta Eduardo Casanova, mal comparando, é o Xavier Dolan espanhol. Começou cedo na direção, é ator, escreve seus roteiros e realiza filmes totalmente estilizados, com estética publicitária e super pop, e utilizando em sua trilha sonora clássicos vintage. A diferença? Ele usa o universo do grotesco e dos filmes B, além da referencias Lgbts, em seus filmes. "Peles" é uma versão para longa do sue premiado e controverso curta "Eat my shit", sobre uma jovem que nasceu com os orifícios do anus e da boca invertidos. Em "Peles", ele recupera a mesma personagem, mas além dela, ele reúne mais uns 6 personagens de pessoas deformadas e que tentam dar vazão aos fetiches Sexuais provocados por outras pessoas. O centro da historia é um bordel, onde uma menina, Laura, que nasceu sem olhos, é a grande atração para os clientes. Além dela, temos uma anã, um rapaz que quer serrar suas pernas porque acredita ser uma sereia, um casal de rosto deformado e por ai vai. O filme só poderá ser assistido por pessoas com mente aberta, caso contrario, será um escândalo atrás do outro. Pedofilia, fetiches sexuais, escatologia, coprofagia...o cineasta Eduardo Casanova não economizou em cenas de sexo, nudez , obtendo de seu elenco o máximo de realismo em momentos de visceralidade. Sim, o filme tem o propósito de chocar, e por conta disso, acaba perdendo muito de seu foco, que e' apresentar um universo que o diretor Todd Browning havia trazido na sua obra-prima "Freaks". Casanova expõe pessoas com problemas físico como se fossem objetos de escárnio publico. Entre atores maquiados com próteses e anões e gordos de verdade, fica a duvida sobre o que ele realmente quiz falar em seu filme e para quem. Mas como sou um cinéfilo que ama filmes bizarros, gostei bastante. Excelentes fotografia, Direção de arte e trilha sonora.

Eat my shit

"Eat my shit", de Eduardo Casanova (2015) Aos 24 anos, o cineasta espanhol Eduardo Casanova realizou um dos curtas mais ousados que assisti na vida. A breve história (o curta tem 3 minutos) narra o bizarro drama de Samantha, uma jovem que nasceu com uma terrível condição física: os orifícios do anus e da boca foram invertidos quando ela nasceu. Ela come pelo anus, e dejeta pela boca. Quando Samantha resolve postar uma foto de seu rosto no Instagram, e vetado pela politica de censura do mesmo. Samantha resolve almoçar em uma lanchonete, e a garçonete desdenha de seu rosto. Samantha resolve se vingar. Inventivo, original, mas também grotesco e tosco, "Eat my shit" não é para qualquer espectador. Me lembrei muito do brasileiro Edgar Navarro, que realizou um curta chamado "O rei do cagaço", clássico do cinema marginal, onde o próprio surge defecando. "Eat my shit" recentemente originou um longa, dirigido pelo mesmo Casanova, intitulado "Peles". https://vimeo.com/136592330

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Os intrusos

"Os intrusos", de Joao Gabriel Villar (2016) Que maravilha que é esse curta, exibido na Mostra de Tiradentes. Provavelmente inspirado no cult de Xavier Dolan, "Amores imaginários", narra uma relação entre 3 adolescentes: 2 rapazes e uma menina, em sintonia que vai além de pudores e gêneros. Naomi Nero, protagonista de "Mae só há uma", de Ana Muyalaert, circula em cena totalmente nu, em closes nos genitais, e esse despudor merece grande aplauso. Bela fotografia, deliciosa trilha sonora, uma narrativa fluida, gostosa, sem apelações, e livre, como todo filme deve ser.

domingo, 16 de abril de 2017

Melhores amigos

"Little men", de Ira Sachs (2016) O Cineasta americano Ira Sachs tem se destacado na cena indie com filmes que chamam a atenção pelo excelente trabalho de direção de atores e também pelos roteiros comoventes, humanos, que insistir em falar sobre relacionamentos verdadeiros em um mundo cada vez mais tecnológico e egocêntrico. E' dele o filme "O amor é estranho", com John Lighthow e Alfred Molina interpretando um casal gay casados há décadas. O que mais me chamou atenção aqui no filme, é o trabalho brilhante de todo o elenco: Greg Kinnear, os garotos Theo Taplitz e Michael Barbieri e principalmente, essa grande atriz chilena Paulina Garcia, vencedora do Urso de Ouro em Berlin por "Gloria", o extraordinário tour de force dirigido por Sebastian Lelio. "Melhores amigos" é um drama triste. Brian (Kinnear), um ator de teatro independente, se muda com esposa e filho para a casa herdada pelo seu pai no bairro do Brooklyn. Em principio arredio, seu filho Jake aceita morar nesse novo lugar muito por conta da amizade que ele cria com Tony, filho de Leonor, costureira que aluga o andar de baixo da casa do pai de Brian. Com o dinheiro apertado, Brian decide aumentar o aluguel da loja. Impossibilitada de pagar, os adolescentes entram numa espécie de greve, decidindo não mais falar com os seus pais, como uma forma de protesto. O mais interessante no filme, é discutir o papel da arte e do trabalho do ator. Os dois adolescentes desejam se tornar atores, e fazem ensaios em uma escola de artes dramáticas. As cenas de ensaio e exercícios são primorosas, comandadas por Mauricio Bustamente, que na vida real é ator e dá aula na Actor's Studio. A cena de Jake exercitando o método de Meisner com Mauricio é uma obra-prima. Todo Ator deveria ver para entender o que é e o que significa esse método da repetição. O filme foi co-produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, da RT filmes, que também produziu, entre outros, "Frances Ha".

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Meu nome é Ray

"Three generations", de Gaby Delall (2016) Impressionante a quantidade de filmes que hoje em dia, são produzidos se aproveitando da temática do gênero, assunto mais do que na ordem do dia. Impossível abrir um jornal e um site e não se deparar com discussões acerca da homofobia, cultura trans, jovens em busca de sua sexualidade. "Meu nome é Ray" faz parte dessa leva de filmes. Independente até a medula, a cineasta e roteirista Gaby Delall narra o drama de Ramona (Ellen Fanning), uma jovem de 16 anos que quer se declarar como Ray. Ela diz para sua estupefata mãe (Naomi Watts) e avó lésbica (Susan Sarandon) que nasceu em um corpo errado, e que deseja tomar hormônios para se tornar um homem. Para piorar a situação de sua confusa mãe, ela ainda precisa da autorização por escrito do pai de Ramona, que abandonou a família antes dela nascer, que ela nem sabe aonde se encontra. Uma mistura de "Minhas mães e meu pai" e " Tudo sobre minha mãe", esse drama melancólico se apoia totalmente em cima do talento do trio de atrizes , as tais "3 gerações" do titulo original. O filme com certeza não é o melhor do trabalho delas, mas o fato de ve-las trabalhando juntas confere dignidade ao projeto, que se não enche os olhos, pelo menos serve como pano de fundo para discussões acerca da responsabilidade dos pais em relação a independência de seus filhos. O ritmo do filme é bastante lento, e ele nem sequer chega a comover, como naqueles "feel good movies". Gaby Delall evitou o sentimentalismo, e talvez por conta disso o filme pareça tão frio. Uma pena, tinha um grande potencial para um publico mais amplo, mas pelo visto, ficou restrito a uma parte bem pequena de audiência.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Gostosas, lindas e sexies

"Gostosas, lindas e sexies", de Ernani Nunes. Não fossem as referencias de sexo e os palavrões, "Gostosas, lindas e sexies" poderia perfeitamente ser exibido no Sessão da tarde como uma Comédia romântica daquelas onde as meninas suspiram por seu príncipe encantado. Afinal, o principal ingrediente está ali: Cinderelas em busca de seu par perfeito, sonhando dormindo ou acordadas, mas sempre acesas para a presença de qualquer ser humano do sexo masculino: garçons, motoristas, fotógrafos, atores, maridos, ex-maridos, a metralhadora libidinosa aponta para todos os lados. Pudera: o roteiro não esconde a sua principal e grande referencia: o seriado americano mais famoso das últimas décadas, e responsável por mudança no habito de muitas mulheres: "Sex and the city". Beatriz, Tania, Ivone e Marilu, encarnam cada uma delas, a persona de Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda: tem a fogosa, a romântica, a sedutora, a sonhadora. Para dar vida a essas meninas emponderadas e donas de si, foram escaladas Mariana Xavier, Cacau Protasio, Lyv Sieze e Carolinie Figueiredo. Em maior ou menor grau, o talento das meninas desponta para cenas românticas, safadas ou malucas. Sao muitos os sub-plots, mas invariavelmente fala sobre os dilemas da mulher moderna: criou-se independência financeira e profissional, mas ao custo de isolamento e distanciamento nas relações. Elas choram, elas se deprimem, elas vão `as festas chorar mágoas, elas enchem a cara, elas se divertem, elas namoram e elas traem. O roteiro se baseia nessas premissas. Para quem quer um filme que fala sobre ter auto-estima sendo fora do padrão de beleza inflingido pela mídia ( no caso, 4 meninas "gordinhas") vai se identificar bastante. Afinal, desaforos não são trazidos para casa. Faltou ao roteiro situações mais divertidas e inteligentes que tratassem do tema da obesidade sem cair nos chavões do bullying de tipos vilanescos que agridem sem qualquer tipo de constrangimento. Mas isso talvez fique para a continuação. O que vale aqui, é se deixar levar pelo carisma das meninas e sucumbir a um passatempo simpático e sem pretensões. O que já está bom demais. O elenco de apoio conta com um elenco enorme: Marcia Cabrita, Marcos Pasquim, Paulo Silvino, Sabrina Korgut, André Bankoff, Eliane Giardini, Rita Batata, entre outros.

1:54

"1:54", de Yan England (2016) Em tempos de bullying juvenil e do mega sucesso do seriado da Netflix "13 reasons why", a França com com um belo drama sobre o mesmo tema: o bullying nas escolas, e a falta de visão dos pais, educadores, amigos para evitar grandes tragédias que culminam em suicídio. O filme é protagonizado por Antoine-Olivier Pilon, o astro de "Mommie", o excelente filme de Xavier Dolan. Em um registro totalmente diferente e mais discreto, ele interpreta Tim, o melhor amigo de Francis. Quando Francis tem sua homossexualidade revelada pelos outros alunos, Tim se afasta ( Tim é gay reprimido e não saiu do armário) de Francis, o que acaba culminando no suicídio desse. Sentindo-se culpado e abalado, Tim passa a ser agredido pelos mesmos agressores, que o acusam de também ser gay. Na verdade, o agressor, Jeff, deseja competir nos jogos olímpicos estudantis, e Tim é um forte concorrente. Tim tenta ser forte, mas acaba que a vingança falará mais alto. Interessante como os roteiristas veem na vingança a única forma de solucionar a questão do bulying. Todo mundo sabe que ela acontece nas escolas, mas ninguém faz nada, nadinha. Com certeza não é a melhor das soluções para ninguém, mas como é um filme de ficção e ai, os roteiristas partem para grandes reviravoltas, acaba se tornando um elemento de clímax e suspense. Um pouco que corrobora com aquela visão de que todos que sofrem rejeição, se tornam pequenos psicopatas. Polemico ou não, a performance do elenco é um ponto forte nesse filme, além da bela rilha sonora. Yan England soube trabalhar bem o seu elenco, e conduzir com boa dinâmica o ritmo do filme. O final me pareceu bastante abrupto, e confesso, merecia algo mais instigante. Curiosamente, anos atrás teve um filme australiano também sobre bullying nas escolas chamado "2:37". Lá, era a hora do suicídio da menina. Aqui, é o tempo que os corredores pretendem para quebrar o record de corrida na pista.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Simples mortais

"Simples mortais", de Mauro Giuntini (2011) Drama brasiliense, vencedor de 2 prêmios no Cine PE em 2008: melhor ator (Chico Santanna) e melhor ator coadjuvante, para Eduardo Moraes, que interpretam pai e filho. Dividido em 3 episódios que se entrelaçam, apesar da independência de cada um, o filme apresenta personagens desiludidos, frustrados e sem perspectiva, que moram no mesmo prédio em Brasilia, uma metáfora da solidão e do "deserto humano". Amadeu (Chico Santanna) é um funcionário público que abandonou seu sonho de ser músico e ser um burocrata. Por conta disso, ele não consegue administrar o sonho de seu filho de querer ser músico. Uma ancora de um telejornal quer engravidar, e por conta disso, ela controle obsessivamente a vida pessoal, profissional e sexual do seu parceiro, um ator teatral. Leonardo Medeiros interpreta Jonas, um poeta e escritor que dá aula em uma faculdade e se relaciona com uma aluna. Casado, ele não mantém relações com sua esposa,a preferindo o sexo virtual e programas com travestis e prostitutas. Numa metrópole onde todos buscam o inferno e a decadência moral, não existe espaço para o amor. Nesse mundo tão frio e pessimista, Mauro Giuntini e Di Moretti parecem querer dizer que o ser humano não deu certo. Para quem estiver a fim de ver um filme depressivo e não se incomoda com isso, pode até achar o filme interessante, apesar de lhe faltar ritmo e histórias mais instigantes. No final das contas, o filme ficou famoso por uma cena escatológica de Amadeu defecando uma chave que ele engoliu e enfia a mão na privada para pegá-la. Pelo menos essa e a lembrança de quase todas as pessoas que viram o filme.

"87"

"Ochentaisiete", de Daniel Andrade, Anahí Hoeneisen (2015) Escrito e dirigido pela dupla de cineastas Daniel Andrade e Anahí Hoeneisen, "87" é um comovente drama sobre culpa, perda e amizade, ambientada no Equador de 1987 e nos dias atuais. Um raro filme vindo desse País, em co-produção com a Argentina, "87" lembra bastante em seu tema e no tom melancólico, o clássico "Conta comigo", aqui devidamente adaptado para um contexto de ditadura militar existente no Equador dos anos 80. Andres, Juan e Pablo são adolescentes e melhores amigos no ano de 87. Cada um com um drama familiar pessoal, eles são unha e carne. Um dia, Carolina, uma jovem adolescente rebelde, cria laços de amizade com eles, mas sua presença estabelece conflitos no grupo. Corta para os dias de hoje. Pablo (Michel Noher), retorna da Argentina para Quito, a convite de seu amigo Andres. Esse retorno vem repleto de remorsos e culpa. O filme vai em flashbacks para entendermos o que aconteceu em uma certa noite do ano de 1987. Com uma linda atuação dos jovens, e boa performance dos adultos, o filme vem sempre em tom de melancolia e o famoso "coming of age", aquele termo americano que fala sobre filmes onde os adolescentes crescem mediante traumas em sua vida. Boa direção, fotografia e trilha sonora nostálgica. Recomendado.

The void

"The void", de Jeremy Gillespie e Steven Kostanski (2016) Um filme que já nasceu cult, "The void" é uma produção canadense de terror, que pegou carona na onda nostálgica da serie "Stranger things" e reavivou verdadeiros clássicos dos anos 80, embalados para presentear os fãs do gênero em um filme totalmente insano. Já pensaram em David Lynch filmando um longa de terror? Pois essa foi a sensação ao assistir a essa colcha de retalhos que homenageia de uma só vez, "Alien", " O enigma de outro mundo", "Hellraiser", "Do além", "Fantasma" (Noite macabra), "A noite dos mortos vivos". A gente nunca sabe aonde a história bizarra vai se encaminhar. E' muita loucura, e das boas. Em uma estrada do interior dos Estados Unidos, um policial, Daniel, encontra um homem ensanguentado. Ele o leva até a um hospital decadente, aonde sua ex-esposa trabalha. Lá, um médico e sua equipe atende alguns pacientes. Súbito, uma das enfermeiras sofre um surto e se transforma em um monstro. Depois, uma quadrilha de encapuzados armados faz uma barricada no hospital. Impedidos de sair, os reféns são obrigados a enfrentar assassinos e monstros que querem matar a todos eles. Os efeitos do filme são totalmente oitentistas, sem computação gráfica. Muito sangue, gosma, personagens alucinados, e para os fãs do terror antigos, vai ser uma verdadeira catarse assistir ao filme. Me diverti bastante, e mesmo com alguns problemas de roteiro, o filme vale super a pena. Elenco sensacional, totalmente dentro dos estereótipos dos personagens.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Nojoon, 10 anos e divorciada

"Ana Nojoom bent alasherah wamotalagah", de Kadhija Al Salami (2016) Drama escrito e dirigido pela cineasta Kadhija Al Salami, baseado no livro escrito por Nujood Ali. No Iêmen, é hábito dos aldeões casarem suas filhas menores de idade em troca de favores ou dinheiro. Nojoon é uma dessas meninas. Aos 10 anos, ela é vendida para um aldeão analfabeto e Brito que a estoura e maltrata. O pai de Nojoon ignora seu pedido de ajuda e a mãe Dela igualmente, pois aceita o destino imposto as mulheres na sociedade machista em que vivem. Nojoon resolve fugir e procurar o tribunal. Ao se confrontar com um juiz, ela pede o divórcio. Uma história tão trágica e cruel só poderia ter chamado a atenção de Sundance e de vários festivais que o premiaram. A própria cineasta foi vendida aos 11 anos de idade e portanto, ela sabe com propriedade do tema que tem em mãos. Para quem assistir ao filme, deve procurar abstrair os defeitos técnicos da producao( fotografia, edição, atores amadores, roteiro, etc) e se ater ao conteúdo contundente. O olhar da cineasta é naturalista é totalmente documental. Não é um filme perfeito, mas vale ser visto e discutido. A pequena Reham Nohammed dá conta do difícil papel de Nojoon, ainda mais sabendo que ela não tinha nenhuma experiência prévia de atuação. A metáfora da boneca é bastante ingênua, mas com certeza atingirá uma parcela grande da plateia com a sua simplicidade narrativa.

A Família Dionti

"A família Dionti", de Alan Minas (2015) Escrito e dirigido por Alan Minas, estreando em longas, esse romance juvenil com tintas fabulescas passeia pelo universo do realismo fantástico, como se Gabriel Garcia Marques tivesse aportado na cidade mineira de Muriaé. eu chamei esse filme de "Michel Gondry mineirim" ao final da projeção, pois foi exatamente essa a sensação que tive. Corajoso, ainda mais em se tratando de um filme onde os efeitos visuais são importantíssimos ( e dentro de uma produção de baixo orçamento), " A família Dionti" pode sensibilizar espectadores nostálgicos, que buscam a sua infância perdida nos filmes. Se vai fazer sucesso junto do publico infantil, isso é uma grande questão. Assim como o Frances "O pequeno Nicolau", o filme fala melhor aos adultos, que cresceram assistindo a filmes de Mazzaropi, Os trapalhões, ao clássico "A dança dos bonecos" de Helvecio Ratton e as aventuras do Menino Maluquinho. Com muita imaginação, mas sem que os personagens se utilizem de tecnologia, o filme faz acreditar que basta sonhar que seremos mais felizes, podendo fazer o lado negro da vida menos triste. A família Dionti ( de ontem, e daí vem o caráter nostálgico da trama, apesar do filme se passar nos dias de hoje) é formado por pai e 2 filhos. Um de 15, e outro de 13 anos. A mãe, dizem, se "evaporou". Um dia, uma menina surge na escola: ela é filha de uma família de circo. A presença dela faz o menino de 13 anos se apaixonar, e portanto, vai literalmente " se derretendo". A direção de Alan Minas aposta na simplicidade, mesmo nos efeitos, para deixar tudo com um tom de infância, sem grande epopéia tecnológica. O ritmo do filme é lento, e os planos bem longos, comprometendo a dinâmica, o que pode afastar a criançada e tornando o filme com um olhar mais autoral. O filme teria ganho bem mais se tivesse apostado mais no lúdico e no fantástico desde o inicio, o que demora a acontecer na trama. Mas alguns momentos são de verdade bem poéticos e bonitos, como por ex, a menina narrando os personagens bizarros de sua família circense. Ao final do filme, fiquei pensando: cade o circo que nunca aparece? Prefiro pensar que era tudo imaginação. O filme ganhou o Premio de melhor filme do juri popular no Festival de Brasilia em 2015.

domingo, 9 de abril de 2017

Código de família

"Trespass against us", de Adam Smith (2016) Longa de estréia do inglês Adam Smith, é um drama sobre uma família de criminosos, liderados por um pai possessivo e cruel, Colby (Brendan Gleeson). Morando em trailers abandonados na periferia de uma área rural da Inglaterra, essa família irlandesa vive de roubos. Entre os filhos, está Chad (Michael Fassbender), casado e pai de 2 filhos pequenos. Chad, diferente dos outros familiares, se preocupa com o futuro de seus filhos e pensa em largar a vida bandida, mas a pressão de seu pai em querer que eles continuem roubando se torna um grande conflito para ele. Filmes com temas sobre famílias bandidas e bem comum, e sempre tem um integrante que quer se redimir. Aqui não é diferente. Por isso mesmo, o roteiro do filme não oferece grandes atrativos. Alternando entre drama familiar e filme de ação ( através das ações de roubo e perseguição policial, aliás bem filmadas, mas mostrando os policiais como despreparados), "Código de família" acaba valendo a pena ser visto apenas pelo bom trabalho do trio de atores principais: Além de Fassbender e Gleeson, a excelente Lyndsey Marshal no papel da esposa de Chad. Uma pena que o filme não tenha fôlego o suficiente para sustentar a atenção do espectador durante toda a duração, tornado-se repetitivo antes mesmo de chegar em sua metade. Atenção para a excelente fotografia, um dos pontos altos do filme, a cargo de "Enterrado vivo" e " O direito de amar".

Os girassóis da Russia

"I girasoli", de Vittorio de Sica (1970) Clássico romântico de um dos maiores nomes do cinema italiano, um dos precursores do neo-realismo e autor de obras-primas como "Ladroes de bicicleta", "Umberto D", " O jardim dos Finzi-Contini" entre outros. Desde criança eu sempre havia ouvido falar de "Os girassóis da Russia", e sabia que havia sido um enorme sucesso comercial. Mas nunca tive a oportunidade de assistir. A primeira impressão que tive era em relação a grandiosidade desse filme. Um épico romântico, no nível de " Dr Jivago" e outros clássicos de David Lean. Como era comum na época, essas historias de amor terminavam sempre com final triste e melancólico, para desespero dos espectadores. Não foi diferente com essa terceira parceria do trio de Sica/Sophia Loren e Marcello Mastroianni, com quem o cineasta havia trabalhado antes nas com´dias " Matrimonio `a italiana" e " Ontem, hoje e amanha". "Os girassóis da Russia" foi um filme que marcou toda uma geração, muito por conta da historia de amor impossível, da trilha sonora inesquecível de Henry Mancini, da fotografia de Giuseppe Rotundo e das magnificas locações na Russia. Esse foi o primeiro filme ocidental rodado em terras soviéticas, tendo tido apoio da estatal Moscow Films. Sophia interpreta Giovana, uma italiana bela que se apaixona por um soldado, Antonio (Mastroianni). Eles tem 12 dias juntos, pois Antonio terá que voltar aos campos russos para a batalha. Eles se casam, e para evitar que ele volte `a batalha, Antonio simula estar louco e é internado em uma clinica psiquiátrica. Porém, ao visitá-lo, Giovana não resiste e ambos namoram. Descoberta a farsa, ele é enviado para a Russia. Anos se passam, e terminada a guerra, Giovana não recebe noticias de Antonio. Dado como morto pelas autoridades, mesmo sem a presença de um corpo, Giovana não acredita na hipótese da morte do amado e decide ir até a Russia para procurá-lo. O recente filme de Jean Pierre Jeunet, "Eterno amor", tem um tema semelhante, com Audrey Tautou tentando encontrar o seu amado nas ruínas da 2a guerra mundial. No filme de de Sica, ele não economiza no melodrama, e por isso mesmo, o filme foi mal recebido pela crítica, apesar do grande sucesso de público. Os filmes italianos da época tinham forte teor politico e social, e quando de Sica veio com um novelão, foi massacrado. Visto hoje em dia, é inegável que o filme está datado, porém vale ser visto para relembrar um tempo onde os filmes eram grandiosos para contar uma história simples, no caso até inverossímil, mas talvez por isso mesmo, emocionante. Assistir a Sophia Loren e Marcello Mastroianni em cena é um presente para qualquer cinéfilo. A câmera é totalmente apaixonado pelos dois, como eles crescem na tela! A atruz russa Lyudmila Saveleva no papel de Mascia, também é magnifica, e imprime apenas com o seu olhar, a sua tragédia pessoal. E de Sica filma tudo com extrema elegância. Um Mestre! A imagem dos campos floridos de girassóis é antológica, ainda mais com a informação de que cada flor representa um soldado morto e enterrado no campo.

Blow up- Depois daquele beijo

"Blow up", de Michelangelo Antonioni (1966) Existem filmes que a cada revisão, se tornam cada vez mais instigantes. Nos dias atuais, de politicamente correto, fico imaginando se um personagem como Thomas sobreviveria: ele é manipulador, pratica bullying nas modelos como se elas fossem mero objetos de prazer e de escárnio. "Blow up" é um filme que é cercado de tantos simbolismos, que parecem co-existir nele pelo menos 3 filmes diferentes. O filme teve uma influencia tão grande nos Cineastas que o assistiram, que Brian de Palma e Francis Ford Coppola o homenagearam em " Blow out" e "A conversação", respectivamente. Lançado em 1966, e vencedor de vários prêmios Internacionais, entre eles, a Palma de Ouro em Cannes em 1967, "Blow up" pode ser visto como um filme que fala sobre as aparências, aquilo que vemos, o que achamos que vemos e o que poderia ter sido visto. Thomas (David Hemmings) é um fotógrafo de moda famoso e requisitado pela modelos. Jovem, ele também é manipulador e abusa moral e sexualmente de suas modelos. Para sair de sua rotina, ele se faz passar durante a noite como um operário em uma fabrica para poder fotografar os empregados, com a finalidade de publicar um livro estilo "Sebastião Salgado", em preto e branco.Um dia, ao passear em um parque com a sua câmera apenas para espairecer, ele vê um casal namorando e resolve fotografa-los. Ao ser vista, a mulher (Vanessa Redgrave) obriga Thomas a lhe entregar o filme, o que ele nega. Mais tarde, ela descobre o seu paradeiro e ele acaba entregando um outro rolo de filme. Ao revelar as fotos, e posteriormente ampliá-las, Thomas acredita ter testemunhado um assassinato. Baseado em um conto do escritor argentino Julio Cortazar, " As babas do diabo", que tem um fotografo morto e vivo que narra em primeira pessoa o que ele viu ao tirar fotos em um parque. Li em uma matéria que o ator que interpreta ' Assassinado", Ronan O'Casey, teria dado uma entrevista aonde ele explica o filme que deixou muita gente instigada pelo seu final em aberto. Segundo ele, Antonioni estourou o orçamento do filme, e por isso, a trama policialesca não se desenvolve. Verdade ou não, o filme que nos foi apresentado por Antonioni tem um dos desfechos mais intrigantes da historia do cinema. Uma trupe de mímicos joga tênis em uma quadra, mas sem bola e sem raquetes! Thomas observa a tudo curioso, até que ele é solicitado a pegar a bola invisível para que o jogo continue. Brincando com o tema da ilusão, Antonioni nos deixa perplexos sobre o protagonista: teria ele de fato visto um assassinato? Ao ampliar as fotos, ele não teria visto cosias demais? Seria ele um esquizofrênico pelo seu comportamento? Ele estaria sob o efeito de drogas? Tirando a trama policial, temos também um filme sobre moda e comportamento. Londres nessa época, era a capital da moda: artistas, escritores, poetas, todos estavam ali, no que se chamou de "Swinging London". Uma capital colorida, vanguarda, onde as drogas, o sexo livre e o rock reinavam em todos os lugares. O hedonismo dava o tom, e tudo era permitido. os mesmos mímicos surgem no inicio do filme dando o ar da provocação e dizendo a todos:"Libertem-se de suas amarras e permitam sonhar". Talvez seja essa a deixa para que Thomas de asas `a sua imaginação fértil. Com uma fotografia magistral de Carlo di Palma e uma trilha de Herbie Hancock, os figurinos e a maquiagem são um registro impecável de uma época. No elenco, além do novato David Hemmings (Sean Connery era a primeira opção, mas deu pra trás porque disse que não havia entendido nada do roteiro), temos Vanessa Redgrave, Sarah Miles , a iniciante Jane Birkin e a super modelo Veruschka. As cenas de sessão fotográficas são antológicas.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Las tetas de mi madre

"Las tetas de mi madre", de Carlos Zapata (2015) Em um bairro pobre de Bogotá, um menino de 12 anos, Martin, trabalha entregando pizzas. Em uma de suas entregas regulares, ele vai até um bordel. Escondido, toda noite ele vai para a cabine de peep show. Martin se surpreende ao ver a sua mãe, Mara, fazendo show erótico para os clientes na cabine. A partir daí, Martin desenvolve uma estranha fixação erótica por sua mãe, um complexo de Édipo obsessivo, o que o faz repelir todos os homens que se aproximam dela. Belo drama colombiano, com tema bastante ousado e cenas fortes envolvendo o ator mirim ( interpretado pelos gêmeos Billy e Santiago Heins). Em uma cena, ele aproveita que sua mãe está dormindo, desnuda o seio dela e mama. Em outras cenas, o menino observa homens se masturbando vendo sua mãe se apresentando. O filme apresenta o verdadeiro mundo cão em Bogotá, e como tal, seria impossível não falar de tráfico de drogas. Essa sub-trama do envolvimento de Martin com um colega traficante da escola acaba tornando o filme mais longo do que deveria ser. De qualquer forma, a trilha sonora, composta por hip hop, o trabalho do elenco e a força da direção de Carlos Zapata, de apenas 29 anos, fazem esse filme valer a pena ser visto e discutido.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Por trás do céu

"Por trás do céu", de Caio Sóh (2016) Nos anos 80 e 90, um cineasta holandês, Jos Sterlling, se transformou em um dos grandes nomes cults internacional. Seus filmes lidavam com o realismo fantástico, o lúdico, personagens ingénuos que observavam a violência do mundo de forma inocente e condescendente. O roteiro tinha poucos diálogos, eram personagens quase silenciosos. Os figurinos eram estilizados, a fotografia saturada, a trilha sonora em tom de melancolia. "O ilusionista" e " O holandês voador" ganharam muitos prêmios, merecidamente. Durante todo o tempo que eu assistia ao filme "Por trás do céu", eu só conseguia pensar nos filmes de Sterling. Me reportei imediatamente aos anos 90, a um tempo aonde o cinema comovia pela estética. Mas os tempos eram outros, e hoje em dia, o politicamente correto varreu o mundo. Não tem como não pensar em um elenco onde são todos brancos morando em uma caatinga que castiga quem mora ali. Sotaques? Vários, e o único legitimo me pareceu ser o do pernambucano Renato Goes. Mas eu não sou ligado no politicamente correto. Mas uma espectadora do meu lado só falava nisso. Que na caatinga não existiam casas assim. Que a pele da atriz estava mais suave do que modelo de comercial. Que a atriz que interpretava a prostituta tinha botox. Tentei ignorar tudo o que era dito e foquei no filme. Na sua beleza, na sua estética, na sua proposta narrativa. O roteiro ficou confuso. Os vai e vens na trama, me desnorteou. O dono da fazenda ficou mal construído, unidimensional, só estava ali para fazer o papel do malvado. Humanismo? hum...faltou. Em algum momento também me lembrei de " Minha vida de cachorro", de Lasse Hallstrom, por conta do desejo da protagonista querer montar um foguete e ir embora daquela vidinha mais ou menos. A melhor cena do filme, de uma beleza impar, ´no final, com o "lançamento" do foguete. poesia pura. A trama: 4 personagens se encontram no deserto da Paraíba, entre sonhos e frustrações de um passado violento. Nathalia Dill, Emilio Orciollo Netto, Paula Burlamaqui e Renato Goes alternam momentos de drama e humor. Mas o que mais se destaca mesmo no filme, é o visual, que em muitas vezes, suplanta a dramaturgia. Renato Góes é uma ótima revelação, lembrando um pouco o tipo de humor do Edmilson Filho, de "O Shaolin do sertão". Trilha sonora sensacional de Plinio Profeta, que traz uma carga magica `a trama.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Capture kill release

"Capture kill release", de Nick McAnulty e Brian Allan Stewart (2016) Filme de terror canadense, vencedor de vários prêmios em Festivais de cinema de gênero. Fazendo uso da linguagem ( ainda??) do found footage, " Capture kill release" frustra pelo roteiro ruim, que usa o mote de "Festim diabólico", de Hitchcock: um jovem casal quer provar que eles são superiores e para isso, resolvem matar pessoas desconhecidas. Munidos de serras elétricas e martelos, eles sequestram e matam estranhos. Mas não se deixem enganar: o filme é ruim, chato, interminável e sem qualquer tensão. Eu nao suporto esses filmes found footage onde os personagens se gravam durante 24 horas por dia, sem razão alguma para isso. As cenas de gore são toscas, e os diálogos, pobres. Os 2 atores protagonistas sao irritantes e não ha qualquer possibilidade de simpatizar com as vitimas. O filme, de longos 96 minutos, teria sido muito melhor aproveitado se os realizadores tivessem feito um curta de 15 minutos. Faltou aquela frieza e a inteligência de um cult realmente assustador, como "Henry, retrato de um serial killer". Aqui, o que vemos são caricatura de serial killers. Passe adiante.

Rules don't apply

"Rules don't apply", de Warren Beatty (2016) Quase 20 anos depois de seu último filme ( "Politicamente incorreto", de 98). Warren Beatty dirige, escreve, produz e protagoniza "Rules don't apply", um romance ambientado na Hollywood dos anos 50, com o magnata e excêntrico Howard Hughes como personagem principal (interpretado por Beatty). O filme foi um grande fracasso, tendo custado 27 milhões de dólares e faturado menos de 4 milhões. O Oscar o ignorou por completo, mesmo como uma ficha técnica excelente (fotografia, direção de arte e figurino de altíssimo nível). O filme narra uma historia de amor impossível entre uma jovem atriz em busca de um lugar ao sol, Marla (Lilly Collin), que chega em Hollywood acompanhada de sua mãe (Annete Bening). Elas são religiosas da Igreja batista e procuram evitar ao máximo os excessos da vida mundana do cinema. Marla foi convidada por Howard Hughes para uma audição, e mora em uma mansão, com direito a um motorista particular, Frank ( Alden Ehrenreich). Logo Marla descobre que existem outras 30 atrizes bancadas por Hughes disputando o mesmo papel. Hughes proíbe qualquer envolvimento amoroso entre os seus funcionários, mas mesmo assim, Marla e Frank se apaixonam, mas seguem esse amor de forma platônica. Após o grande sucesso de "O aviador", de Scorsese, com Leonardo di Caprio interpretando com maestria Howard Hughes, fica difícil enxergar Warren Beatty interpretando o mesmo personagem. Sem carisma, o seu Hughes torna-se uma figura extremamente antipática. Mesmo problema tem Lilly Collins, atriz desprovida de charme e encantamento para um papel tão romântico. Mesmo com um super elenco, que inclui Mathew Broderick, Martin Sheen, Ed Harris, Paul Sorvino, Alec Baldwin, todos parecem estar no automático. Só quem se sobressai é Alden Ehrenreich, um jovem talento que provou seu ótimo ator e bastante versátil em "Ave, Cear", dos irmãos Coen. Ele confere dignidade e carisma ao seu personagem, mas o roteiro, extremamente burocrático, torna tudo bastante enfadonho. Uma pena, pois o tema de Hollywood sempre me interessa. Longo e sem sal.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Pitanga

"Pitanga", de Camila Pitanga e Beto Brandt (2016) Parceiros no filme "Eu receberia as piores noticias de seus lindos lábios", dirigido por Beto Brandt e protagonizado por Camila Pitanga, ambos idealizaram esse comovente e divertido documentário "Pitanga", que narra a trajetória pessoal e artística desse grande Ator que representa toda uma historia da Cultura brasileira dos anos 60 aos dias de hoje. Apaixonado por contar historias, Antonio Pitanga recebe convidados mais do que ilustres, de todas as áreas: Cinema, música, literatura. Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethania, Jard Macalé, Ney Latorraca, Tamara Taxman, Angela Lea, Tonico Pereira, Ruth de Souza, Zezé Motta, Lea Garcia, Joel Zito Araujo, Lazaro Ramos, Sergio Ricardo, Cacá Diegues, Walter Lima Jr, Ze Celso, e tantas outras personalidades, que relembram causos sensacionais, arrancando gargalhadas da platéia. Impressionante a memória de Pitanga, que como poucos atores, passaram pelo Cinema Novo, pelo Teatro Oficina, trabalhando com os mais polêmicos e contestadores artistas do País. Camila Pitanga não esconde que o filme é um grande testamento sobre quem é seu pai e quem é esse Ator. Para gerações futuras, uma obra reveladora da alegria e da inteligência de um homem que soube ser feliz, amar e ser amado. Impossível não se divertir quando as entrevistadas comentam sobre a fama de namorador, principalmente Bethania. Para quem vive o presente e tem a sorte de conviver e conhecer com Pitanga, fica a maravilha de poder se contaminar com um astral e uma vontade de viver infindável.

Um beijo

"Un bacio", de Ivan Cotroneo (2016) Dirigido e escrito pelo italiano Ivan Cotroneo ( um dos roteiristas do cult "Um sonho de amor", com Tilda Swinton), "Um beijo" parece uma refilmagem do cleassico adolescente "As vantagens de ser inviísivel", com uma pitada de "Glee" e "500 dias com ela". Misturando drama, romance, comédia melancólica, musical e lirismo, "Um beijo" comove e diverte, apesar do seu final bastante trágico. Lorenzo é um adolescente assumidamente gay que é adotado por um casal de mente aberta. Ao chegar no colégio, ele sofre bullying, mas a sua forte personalidade o faz enfrentar as adversidades. Logo, ele fica amigo de Blu, uma menina rebelde, que também sofre bullying porque um video em que ela faz sexo foi viralizado. Antonio é um esportista que sofre pela morte de seu irmão e acha que seus pais preferiam que ele tivesse morrido no lugar do irmão. Bonito, ele vira paixão platónica de Lorenzo. Os 3 ficam amigos e se unem em suas fraquezas, ao som de muita musica pop. Os 3 atores lembram bastante os atores de "As vantagens de ser invisível", e como lá, são bastante talentosos. O roteiro trabalha em cima de cliches do tema adolescente, mas a direção inteligente de Ivam Controneo consegue equilibrar a obviedade com o frescor de um filme repleto de referencias. A primeira parte é mais solar, e a segunda vai se tornando bastante dramática. Um bom exemplo de filme adolescente que respeita a inteligencia da garotada. Vale assistir e depois discutir com os amigos sobre os temas propostos no filme. Ótima trilha sonora que vai de Lady gaga, New Order, Mika, Blondie e outros.

domingo, 2 de abril de 2017

Uma casa na Rua Willow

"One house on Willow street", de Alastair Orr (2016) Um filme de terror sul africano? Sim, na terra do Cineasta Neill Blomkamp (Elysium, Distrito 9) se produz muitos filmes de gênero. Em "Uma casa na Rua Wilow", as referencias foram tantas, que o filme acabou virando uma grande colcha de retalhos. Pior: como o espectador pode torcer pelos protagonistas, se todos eles são vilões? Uma quadrilha sequestra a filha de um casal milionário. Ao traze-las pro cativeiro, eles a prendem, fazem um video e entram em contato com os parentes. No entanto, ninguém atende os telefones. Quando um dos integrantes vai ate a casa dos pais saber o que aconteceu, os encontra assassinados. Descobrem, aterrorizados, que a jovem inocente que sequestraram, não é quem eles pensavam. Com um ou outro momento de suspense, o filme como o todo afunda em clichês do gênero terror, tornando tudo extremamente óbvio. O elenco principal faz o que pode, os efeitos são meio toscos anos 90, tipo "Hellraiser" das antigas. Para quem não tem nada melhor para assistir, pode ser um passatempo. Caso contrário, assista outro filme. Vai sair no lucro.

sexta-feira, 31 de março de 2017

O espaço entre nós

"The space between us", de Peter Chelsom (2017) Britt Richardson é um fenômeno: uma jovem atriz, bonita, talentosa..mas com um dom impressionante para ser pé fria. Ela precisa urgente ou mudar de Agente, ou reavaliar as suas escolhas. Todos os seus últimos filmes ou fracassaram nas bilheterias, ou foram polêmicos. "Tomorrowland" foi um dos maiores desastres financeiros da Disney. "Quatro vidas de um cachorro" naufragou antes de ser lançado, por conta do video de maus tratos a um dos cachorros usados no filme. "Mr Church", com Eddie Murphy, nem foi lançado aqui no Brasil, e foi alvo de criticas pela comunidade negra, que o acusou de fazer parte dos filmes "Magical negroe", onde negros são subservientes ao homem branco. Agora, com esse "Um espaço entre nós", que foi detonado pela crítica e publico. O filme, pelo trailer, emocionava bastante com a história incrível de um garoto que nasceu em uma primeira missão de colonização em Marte. Porém, devido as condições de seu nascimento, ele não pode vir `a Terra, pois seu corpo frágil não aguentaria a gravidade. Passado os anos, o menino se torna adolescente, Gardner (Asa Butterfield, de "Hugo Cabret" e " O lar das crianças peculiares"). Ele é criado por cientistas na estação espacial em Marte. Conectado `a alta internet, ele bate papo em um chat com uma adolescente problemática, Tulsa (Richardson), sem que ela saiba que ele está em Marte. Apaixonado, Gardner quer vir `a Terra por duas razoes; conhecer Tulsa e conhecer seu pai, sem paradeiro. Com um elenco formado também pelos talentosos Gary Oldman e Carla Gugino, o filme desanda quando o menino chega `a Terra. Parece que se transforma em um outro filme, e se torna um filme corriqueiro sobre adolescentes desajustados e bullying. A direção não aproveita o alto potencial da trama bizarra e lúdica e o romantismo, que deveria ser um pequeno clássico de jovens feito para chorar, não provoca a minima emoção. Uma pena, porque Asa Butterfield é um rapaz muito talentoso. Gary Oldman esta totalmente no automático. O filme é sem ritmo, e os efeitos, razoáveis.

quinta-feira, 30 de março de 2017

A Gloria e a Graça

"A Gloria e a Graça", de Flavio Tambellini (2016) O cineasta e produtor Flavio Tambellini tem uma filmografia bastante eclética: tem policial (Bufo e Spalanzani), comédia romântica (Malu de bicicleta), Drama (O passageiro) e agora, um melodrama com tintas Almodovarianas e carregado em tintas de Wong Kar Wai, "A Gloria e a Graça", escrito por Mikael de Albuquerque e Lusa Silvestre ( de "Estômago"). Nessa história focada na emoção, acompanhamos a rotina de Graça (Sandra Corveloni), mãe solteira dos adolescentes Papoula e Moreno. Ela é massagista Ayurvérdica, e por conta disso, a filha Papoula sofre bullying na escola. Ao visitar um médico, Graça descobre que tem um aneurisma que pode fazer ela morrer a qualquer momento. Aconselhada pelo médico, ela procura seu irmão, único parente viva que poderá cuidar das crianças caso ela morra. Ao marcar um encontro com Luis Claudio, que ela não vê há 15 anos, ela leva um susto: ela agora se chama Gloria (Carolina Ferraz), um travesti, dono de restaurante, que em principio se nega a cuidar das crianças, por conta do passado mal resolvido entre as duas. As duas precisam resolver as suas diferenças antes que o pior aconteça. Passeando entre o drama, o romance a uma leve pitada de humor, o filme tem no trabalho das duas atrizes o seu ponto forte. Se a prótese dentaria de Carolina Ferraz é o equivalente ao nariz de Nicola Kidman em "As horas" ( eu só olhava para a boca de Carolina, juro), o trabalho de Carolina compensa qualquer caracterização para a personagem. Sandra, responsável pelo lado mais melodramático da trama, segura a onda, se contendo para não ficar over em cenas demasiadamente fortes de emoção. A fotografia acaba chamando muita atenção e tirando o foco da narrativa, mas o teor polemico da trama ( dentro e fora do filme, por conta da discussão sobre atores cisgeneros, prostituição, aceitação das diferenças e a pratica do bullying) valem a ida ao cinema com amigos e discutirem depois sobre as varias possibilidades de leitura para o filme. De qualquer forma, um filme ousado por aceitar que o mundo mudou, e a mentalidade das pessoas também precisa mudar.

O casamento de Romeu e Julieta

"O casamento de Romeu e Julieta", de Bruno Barreto (2005) Comédia dirigida por Bruno Barreto em 2005, logo após a sua comédia americana "Voando alto", com Gwyneth Paltrow. Adaptado de um texto de Mario Prata, " O casamento de Romeu e Julieta" brinca com o universo da obra de Shakespeare, e ao invés da rivalidade entre as famílias Capuletto e Montecchio, dessa vez temos a trama adaptada para a Sao Paulo contemporânea. O motivo da briga? Nada mais paulistano do que a rixa entre Palmeirenses e corintianos. Julieta (Luana Piovani) é filha de Alfredo (Luis Gustavo), um palmeirense fanático e que criou Julieta para ser uma palmeirense doente. Um dia, o caminho de Julieta se esbarra com o de Romeu (Marco Ricca), um oftamologista viúvo e órfão, que mora com sua avó e seu filho. A família toda é corintiana. Julieta e Romeu se apaixonam, mas ele precisa se fazer passar por palmeirense para agradar ao sogro. A partir daí, confusões acontecem, deixando Romeu totalmente em crise: escolhe a futura esposa ou mantém o coração fechado para a paixão ao time? Na época eu não assisti ao filme, muito por conta de eu não gostar de futebol, mas assistindo agora até que ri bastante, muito por conta da excelente química entre Luis Gustavo, Luana Piovani e Marco Ricca, que me surpreendeu bastante na veia cómica. Em alguns momentos o filme vai pro caminho perigoso do drama dentro de uma comédia, mas logo se recupera. E' sessão da tarde, e no final, ainda dá lição de moral sobre aceitar as diferenças. Vale pelo elenco e pelo passatempo descompromissado.

quarta-feira, 29 de março de 2017

A vigilante do amanhã

"Ghost in the shell", de Rupert Sanders (2017) Adaptação do mangá cultuado "Ghost in the shell", de Shirow Masamune, e por sua vez, do longa japonês de animação de 1995, " A vigilante do amanhã" tem no elenco globalizado a sua grande força. Scarlett Johanson, Juliette Binoche, Takeshi Kitano ( antologico), Michael Pitt e o dinamarquês Pilou Asbæk dão vida a personagens vibrantes e muito bem construídos. Com ecos de "Blade runner", " Matrix", " O quinto elemento", "Lucy" e "Robocop", o filme consegue criar uma atmosfera impressionante, através de efeitos especiais de última geração. Scarlett Johanson faz parte de um seleto e pequeno grupo de atrizes que faz muito bem qualquer gênero: comédia, drama, ação, ficção cientifica...incrível como ela une talento e sensualidade. Mas o grande chamariz mesmo se chama Takeshi KItano: lá pelo final, ele tem uma frase antológica, onde o cinema vem abaixo:"Mandam coelhos para matar uma raposa?" Que ator extraordinário! Que venha logo a continuação!

Travessia

"Travessia", de João Gabriel (2016) Não fosse as referências de cidade alta e cidade baixa em Salvador, "Travessia" poderia se passar em Amsterdã em qualquer outra cidade europeia. Nunca a capital baiana foi exibida com tanto cinza e clima melancólico como nesse filme. Não há espaço para mães de santo, axé nem carnaval: música eletrônica, droga sintética e relações vazias e frias/distanciadas que somente produções europeias podem proporcionar. Com essa opção, o cineasta João Gabriel oferece um filme duro, dramático e estilizado. Roberto (Chico Diaz, soberbo) ficou viúvo recentemente. Ele tenta se reaproximar de seu filho Julio (Caio Castro) que ele expulsou de casa quando descobriu que traficava, sem sucesso. Uma noite, embriagado, Roberto atropela um menino de rua e o leva até o hospital. Lá, ele conhece uma enfermeira, com quem terá um caso. No filme, não há espaço para amores verdadeira nem amizades reais. Nesse mundo sem cor e sem alma, João Gabriel dirige os atores de forma bastante competente. O roteiro força bastante a Barra ao mostrar personagens que não se deixam amar, às vezes sem muita explicação. Com ótima trilha sonora e fotografia, um corte de uns dez minutos teria sido mais interessante ao filme, que perde ritmo em alguns momentos.

Era o Hotel Cambridge

"Era o Hotel Cambridge", de Eliana Caffé (2016) Uma cena em determinado momento do filme entrega o coração Cinefilo da cineasta Eliana Caffé: 2 personagens transam, em enquadramentos estilizados que fazem referencia ao clássico de Agnes Varda, "As duas faces da felicidade". Eliana Caffé faz de seu "Era o Hotel Cambridge", uma costura narrativa que o cinema iraniano e os documentários de Eduardo Coutinho fazem tão bem: mesclar ficção e documentário, atores e não atores de forma harmônica, a ponto de você se perguntar quem é ator ali no meio. Jurei a mim mesmo que a personagem da líder dos sem moradia, Carmen Silva, era atriz, e quando fui pesquisar, fiquei chocado ao descobrir que ela é real e interpreta a si mesma. Algum produtor de elenco precisa escalar essa maravilha de artista para algum trabalho, ela é simplesmente uma força da natureza. José Dumont e Suely Franco se misturam a não atores e personagens da vida real e vivem moradores da ocupação do prédio do antigo hotel de luxo Cambridge. Ameaçados de despejo em 15 dias, ele se organizam a fim de impedir a expulsão. Com direção pulsante de Eliana Caffé e uma equipe formada por profissionais e estudantes, o filme seduz pela sua mistura explosiva de conteúdo, forma e resultado que mexe com todo mundo. Um microcosmo da sociedade em que vivemos, desse Brasil mesclado de nativos, estrangeiros e refugiados que lutam pelo mesmo Ideal. Um filme polêmico, que polariza discussões intermináveis sobre luta de classes e direitos humanos, seja de forma legal ou não. Obrigatório.

T2- Trainspotting

"T2:Trainspotting", de Danny Boyle (2017) Que ninguém duvide do talento do Cineasta Danny Boyle: ele realizou alguns dos melhores filmes das duas últimas décadas. "Cova rasa", "Steve Jobs", "Extermínio" e claro, "Trainspotting", o clássico de toda uma geração. 20 anos depois, ele retoma a jornada da alma de todos os personagens do original, e os fãs, obviamente, babando para saber o que ele teria feito de Renton, Sick Boy, Spud e Begbie. Foi inevitável para mim comparar com a trilogia de Richard Linklater, que se apropria do tempo real, da memória e dos mesmos atores para prosseguir na história. Nesse sentido, fiquei imaginando o quanto Deus foi generoso com Ewan Macgregor. Ele pouco mudou do garoto de 20 anos atrás. Os outros sentiram pesadamente a idade, e isso acabou favorecendo os seus personagens., detonados pela droga que insiste em fazer parte de suas vidas. Após passar mal durante exercícios de rotina na academia onde mora em Amsterdã, Renton (Macgregor) resolve retornar 'a Escócia e enfrentar o seu passado, que envolve perdão e amizade. Ele reencontra Sick Boy, agora dono de um pub decadente, e Spud, ambos totalmente viciados e com suas vidas destruídas. O que eles não esperavam, é a fuga de Begbie da prisão e que, ao saber da presença de Renton, planeja uma vingança sangrenta. O titulo do filme brinca com a continuação de "Exterminador do futuro 2", de James Cameron, que também era conhecido como "T2". E curiosamente, acaba fazendo uma metafora sobre retorno ao passado para ajustar o futuro, e Begbie se fazendo de anjo vingador e assassino. Esse talvez tenha sido um dos itens que mais me incomodou no filme: Begbie era um psicopata sim, mas aqui ele se transformou numa máquina assassina ( com direto a uma perseguição que culmina numa das melhores cenas do filme, no estacionamento). A bipolaridade de Begbie não se manifestou, e ficamos apenas com o seu lado ruim ( apesar do momento familiar dele). A semelhança com a trama do original também tirou o frescor da trama, principalmente porque toda hora a narrativa volta em flashbacks tentando lembrar o espectador o que aconteceu a 20 anos atrás. De positivo, mesmo, a atmosfera de nostalgia (recorrente, ao fazer uso da clássica trilha sonora do original), o trabalho dos atores e a fotografia do craque Anthony Doodle Mantle. Saí do cinema em crise, sem saber se havia gostado do filme ou não. Provavelmente, precisarei de um tempo para apreciá-lo melhor.

segunda-feira, 27 de março de 2017

A cabana

"The shack", de Stuart Hazeldine (2017) Há exatos 10 anos, em 2007, o livro " A cabana" foi lançado nos Estados Unidos, e logo, na época , vendeu 10 milhões de exemplares. Escrito por William P. Young, aqui no Brasil vendeu 4 milhões de copias. A adaptação para o cinema se tornaria algo óbvio. Claramente um produto Cristão, o filme acredita nas mensagens que prega, e tem como temas o perdão, a culpa, a depressão e a falta de amor. Se você é um espectador repleto de preconceitos com filmes religiosos e apenas quer ver por causa da Octavia Spencer e Sam Worthington, melhor se poupar e não ver para não se irritar. A cada minuto, algum personagem declama uma frase de sabedoria ou mensagem de fé. Agora, se você, assim como o personagem Mack Philips, se permitir assistir ao filme sem julgamento, sem preconceito, pode ser que você goste. E Bastante. Inegável o desejo dos produtores: fazer a plateia chorar e se emocionar. Toda hora uma reviravolta na trama, com musica alta melodramática, nos faz lembrar de que os personagens vão conseguir dar a volta por cima. O intento é um só: se liberte de suas amarras e permita Deus e suas palavras invadirem sua alma e seu coração, perdoando a quem nos machucou. Dito assim, parece ser um filme doutrinário. Mas ele evita, de verdade. Ele faz o espectador decidir sobre as suas ações e a do personagem, sempre dando pelo menos 2 caminhos a seguir. Claro que tanto sucesso na dramaturgia só foi possível por conta do elenco escolhido: Sam Worthington e Octavia Spencer estão maravilhosos. Difícil pensar em outra atriz para interpretar Deus com tanto deboche, amor e respeito. Sam prova aqui seu talento, no caminho perigoso do melodrama, mas se sai super bem. A fotografia e a trilha sonora funcionam bastante, além dos efeitos especiais, parte fundamental para que o público aceite o filme. Alice Braga faz uma participação bem interessante, no papel da "Sabedoria", com bastante força e abraçando seu personagem com garra. O filme esta antenado com a época: Jesus é um ator árabe, o Sabor da vida, uma japonesa, Deus uma mulher negra e `as vezes, um Indio, e Alice Braga, a sabedoria. Negros, latinos, árabes , indígenas e orientais devidamente representado na tela, e as religiões unidas em um só coro: Deus é amor! Cafona? E' sim. Mas também, muito bonito. Deixe seu preconceito em casa e vá assistir a um filme bem realizado. E com um propósito bem definido.

La vinganca

"La vingança", de Fernando Fraiha (2016) Longa de estréia de Fernando Fraiha, "La vingança" foi exibido no Festival do Rio 2016 e imediatamente ganhou status de cult. Por um lado, é ótimo porque ganha a simpatia da crítica. Por outro, ser chamado de cult pode virar uma maldição: O público acha que é um filme cheio de referencias e citações e acaba se afastando. Infelizmente, aqui no Brasil, diferente da Argentina, o filme não conseguiu seduzir o publico de cinema brasileiro. O fato de o elenco principal não ter um nome que remeta a humoristas da Rede Globo é sempre um risco a ser tomado, mas por outro, ganha frescor e o sabor de novidade. Co-produzido por Brasil e Argentina, o tema remete a um eterno clichê entre os brasileiros X los hermanos. a disputa pelo melhor futebol, melhor jogador e quem é melhor pegador quando se fala de mulheres. Caco e Vadão (Felipe Rocha e Daniel Furlan, mais cult impossível) formam uma dupla de dubles de ação decadentes. Vadão possui um opala amarelo, que ele chama de Jorge. Julia (Leandra Leal), namorada de Caco, lhe manda uma mensagem para que eles possam conversar. Essa é a deixa para Caco pedir a mão dela em casamento. Mas ele não esperava chegar no trabalho dela e vê-la transando com o chef argentino. Julia decide ir morar em Buenos Aires com o Chef e Caco, repleto de sede de vingança, convence Vadão e leva-lo para lá, sem dizer os reais motivos da viagem. Divertido quando precisa ser, e dramático e romântico na medida certa, "La vingança" tem claramente referencia ao cinema de Tarantino e Guy Ritchie, e a vive setentista do filme, tanto no visual quanto na trilha sonora, só corrobora essa sensação. Os atores estão ótimos, a piada vem na medida certa ( apesar de eu achar que Vadão poderia ter sido mais humanizado, para não ser apenas o personagem da comédia).

Holy Hell

“Holy Hell”, de Will Allen. Exibido em Sundance 2016, esse polemico documentário conta a historia do Guru Michael, que desde 1985 mantém seguidores em busca de conscientização e um sentido para vida. Will Allen, documentarista do filme e ex-membro, faz um alerta sobre a verdade nua e crua dessa seita, chamada de “Buddahfield”. Fundada na Califórnia por um ex-ator fracassado, que chegou a trabalhar em filmes pornôs gays (essa informação veio depois, os membros do grupo desconheciam) a seita promovia uma comunidade livre onde jovens bonitos e de corpos esculturais conviviam em harmonia, perante pensamentos baseados no budismo. Michael, no entanto, proibia o sexo entre os seus seguidores, desconhecendo que todos transavam entre si ( ele dizia que o sexo era algo sujo e patético). Posteriormente, foi descoberto que ele forçava relação sexual com os homens e obrigava as mulheres a praticarem o aborto, assim que descobria que elas estavam grávidas. O filme aborda 22 anos da convivência de Will Allen nesse grupo ( Allen era estudante de cinema e quando seus pais descobriram que era gay, foi expulso de casa. Sua irmã, Amy, que era do grupo, o convidou, e Allen foi promovido a ser o “documentarista”, registrando passo a passo tudo o que acontecia ali). Com a sua saída em 2007, Allen resolveu fazer esse documentário, que levou anos para editar, convocando ex-membros para darem depoimentos contundentes. A seita , depois de Califórnia, foi para Asutin, Texas, com quase 100 seguidores, e hoje, ela está baseada no Havaí, com cerca de 85 membros, que não acreditam nos fatos divulgados publicamente contra Michael. O filme é interessante. Para qualquer espectador, é impressionante tentar entender o que levou centenas de jovens inteligentes e abdicar de família, amigos, empregos e bens materiais para viver de forma primitiva com Michael e os outros, trabalhando como escravos e sendo obrigados a exercer ações que eles odiavam como aulas de ballet, que Michael amava. Alguns membros alegam que Michael promovia “Lavagem cerebral”, uma vez que ele era Ator e também adepto da Hipnose e conseguia manter influencia sobre todos. O documentário teria sido muito mais interessante se tivessem dado voz de defesa para Michael. Mesmo assim, um ótimo filme para se fazer estudo de personagens.

domingo, 26 de março de 2017

Não sou um canalha

“Je ne suis pas un salaud”, de Emmanuel Finkiel (2015) Esse é um dos dramas mais sofridos e angustiantes que vi recentemente. Li algumas matérias falando sobre o filme, e o comentário de um espectador me chamou a atenção: Ele pedia para que qualquer espectador com tendências ao suicídio, fosse impedido de assistir ao filme. Pois é. Eu mesmo me restringiria a alguns poucos amigos para recomendar a assistir ao filme. Não que ele seja ruim. Pelo contrario. Tem 2 performances brilhantes: a de Nicolas Duvauchelle, no papel do protagonista Eddy, e de Mélanie Thierry, no papel de sua ex-esposa Karine. Eddy é um homem na faixa dos 30 anos, desempregado. Por conta de seu temperamento, Karine se separa dele e mora com o filho pequeno deles. Ela trabalha como repositora de compras em uma grande loja de departamentos. Eddy se torna alcoólatra. Um dia, durante um workshop de vendedor, ele é humilhado pelo instrutor. Ele sai para beber. No caminho, ele sofre um assalto e é ferido. Levado ao hospital, ele recebe a visita de Karine, que penalizada, o aceita de volta. Ela consegue arrumar um emprego na loja onde trabalha, convencendo o seu patrão a contrata-lo em um sub-emprego. Paralelo, em uma audiência, Eddy acusada falsamente um jovem de origem árabe de ser o autor do assalto que o vitimou. A partir daí, as duas vidas vao se destruindo ao longo do filme. De verdade, não é um filme fácil de se assistir. Nicolas Duvauchelle interpreta um dificílimo papel de um homem que não encontra qualquer simpatia com o público. Fui ficando cada vez mais irritado com o caminho que o seu personagem vai seguindo. O diretor Emmanuel Finkiel., que também é roteirista, não sente o mínimo carinho por nenhum de seus personagens. Se quer assistir a um filme com ótimas performances, veja. Se quer um filme para relaxar e descontrair, passe bem batido do filme. Curiosidade: durante uma festa, toca “Taj Mahal”, do Jorge Benjor.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Tschick

“Tschick”, de Fatih Akin (2016) Todo cineasta famoso tem direito a fazer um filme “coming of age” em algum momento de sua carreira. Fatih Akin, o cineasta alemão ( na verdade, turco) mais famoso atualmente, começou a sua carreira realizando dramas pesados e premiadíssimos sobre conflitos culturais e sociais de turcos que moram na Alemanha (Contra a parede, Do outro lado). Depois, foi suavizando seus temas e adentrando o universo das comédias com contexto social (Soul Kitchen) e documentários musicais, até abraçar, definitivamente, o cinema comercial, com esse “Tschcik”, baseado em livro juvenil. Com uma pegada totalmente pop e cheio de referencias a vários filmes sobre o mesma tema ( adolescente nerd e deslocado apaixonado pela garota mais bonita e sebosa da escola, fica amigo de outro aluno que chega, que também é diferente, porém mais livre, rebelde e esperto do que ele. A convivência com ele fará com que ele mude o seu comportamento no final do filme.) Ok, ok, você já viu esse filme mil vezes, e eu também. A diferença, é que o tal do amigo rebelde aqui, é um russo oriental, que se diz cigano judeu, tem cara de chinês, é totalmente despirocado e é um figuraça totalmente apaixonante. Ele é a principal razão para se assistir a esse filme. A Outra, é a deliciosa e eclética trilha sonora, que vai de Genius of love (Tom Tom Club) a Richard Clayderman. A atriz que faz a mãe alcoólatra e a jovem atriz que faz a sem teto que quer ir para Praga também são formidáveis. Nesse road movie, tem espaço para vários tipos estranhos que surgem no caminho ( até mesmo uma família estilo “ Capitão Fantástico”). Fatih Akin resolveu fazer aqui um filme intermediário entre seus grandes e densos filmes. Bom saber que cineastas consagrados tem horas que só querem saber de se divertir. E nós também. Confesso que rolou uma lágrima no final.

Pandora

“Pandora”, de Park Jong-Woo (2016) Lembram de “Armageddon”, de Michael Bay? Pois “Pandora” tem todas as características desse filme: cinema catástrofe, melodrama em excesso, trilha sonora grandiloquente, efeitos especiais mirabolantes, critica ao governo inepto e principalmente, um protagonista patriota e heroico, além das imagens estonteantes em aéreas e planos gerais com direto a muito por do sol e amanhecer. Pois troque o meteoro por uma Usina nuclear prestes a explodir. Acrescente aquele exagero na atuação típico das atuações sul-coreanas, com a tendência para a caricatura mas que a gente acha divertido. E pense que esse filme tem quase 2:20 de duração. (Sim, podia ter 90 minutos). O filme não é ruim. E’ até bastante competente (me surpreendi que é a estreia do diretor, com muita segurança e comando de cenas apoteóticas). E é também a primeira produção que a Netflix comprou na Coreia do Sul para distribuir mundialmente. Para quem deseja apenas assistir a um filme catástrofe, vai curtir bastante. E vai se surpreender pois ali, tem um teor dramático bem forte ( o ato heróico dos funcionários da usina, que se sacrificam para salvar a população, indo contra o mau-caratismo do Governo que insiste em esconder da população o que esta acontecendo). Quem nunca assistiu a um filme sul-coreano, vai estranhar porque os atores exageram e gritam o tempo todo. E’ cultural. Passada essa fase e essa compreensão, vai acompanhar a história de Kang Jae-hyuk, um jovem mecânico que trabalha em uma Usina nuclear junto de seus 4 amigos de infância. Ele mora com sua mãe, sua cunhada e seu sobrinho numa Ilha da Coreia do Sul. Um dia, a Usina explode, a população evacua a cidade, mas os funcionários que estão na Usina se contaminam e precisam impedir que o reator exploda de vez, contaminando todo o Pais. E é aí que entra o ato heróico do grupo. O roteiro em si, co- escrito pelo próprio diretor, não traz novidades ao gênero. O que surpreende, é a alta qualidade técnica dos sul coreanos ao desenvolver um filme blockbuster em tão altas proporções. Aqui no Brasil, seria totalmente inviável um filme assim. O titulo se refere a "Caixa de Pandora", citado por um dos personagens quando crianças alertando sobre o perigo da Usina e que um dia, algo de muito ruim sairia de la de dentro.