sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Principe

"Prins", de San de Jong (2015) Vencedor do Premio de melhor filme da Mostra Geração em Berlin 2015, "Principe" e uma homenagem aos filmes dos anos 80 sobre a rivalidade entre os nerds e os brutamontes que moram em um condomínio classe media da Holanda. Ayoub é filho de pais separados. Ele mora com a sua irmã mais velha e a mãe depressiva. O pai é um drogado, morador de rua. Ayoub tem 3 amigos no condomínio, todos nerds, considerados losers pela gangue dos valentões da área. Ayoub é apaixonado por Laura, que namora o líder da gangue. Ayoub acredita que a única forma dele conquistar o amor de Laura, é sendo um bad boy. E ele procura o traficante local, Kalpa, para se tornar um cara mau. O filme é totalmente estilizado. A fotografia, em cores saturadas, a trilha sonora, repleta de sintetizadores anos 80. O elenco jovem, principalmente o grupo nerd, parece saído de algum filme de John Hugues. A direção não esconde a sua referencia em filmes de gangues, como "Karate Kid", "Ruas de fogo" e outros cults da época. Diversão garantida para quem busca um filme cheio de clichês recauchutados para um visual vintage. Os atores são ótimos, e o filme é curtinho, menos de 80 minutos. Quando parece que vai se tornar repetitivo, acaba.

Seoul Station

"Seoul Station", de Yeon Sang-ho (2016) Animação sul-coreana de terror do mesmo Cineasta de "Invasão zumbi", tem um plot muito semelhante. Na estação de trem de Seoul, um idoso surge com uma mordida no pescoço. Passado algum tempo, ele se transforma em um zumbi, e a partir dai, todos que estão ali no entorno se contaminam. A prostituta Hey-soon tenta fugir dos zumbis, enquanto o seu namorado e o pai dela tentam ir em seu encalço para salva-la. Com ótimos traços, essa animação não economiza nas cenas de violência, o que o torna um desenho para adultos. Em ritmo dinâmico, acompanhamos vários sub-plots e personagens, ate culminar em um desfecho totalmente imprevisível. O cineasta Yeon Sang-ho ja havia dirigido outra animação clássica, o excelente " O rei dos porcos", que trata do trema do bullying na escola.

Apneia

"Apneia", de Mauricio Eça (2014) Longa de estréia do diretor de videoclips Mauricio Eça, lançado em 2014. O filme também poderia se chamar "Pobres meninas ricas". Em Sao Paulo, 3 jovens da alta sociedade tentam contornar a desilusão amorosa e distúrbios familiares através de sexo, drogas e rock'n roll. A premissa não é original. Durante quase 2 horas de filme, acompanhamos as auto-destrutivas Chris (Marisol Ribeiro), que sofre de Apneia e se mantém acordada através de uso de remédios, Julia (Thaila Ayala) e Giovanna (Marjorie Estiano) seguindo de balada em balada, acordando cada dia com um homem diferente na cama, numa tentativa frustrada de encontrar um sentido na vida. Todos os clichês das milionárias depressivas estão lá: pais ausentes, amores não correspondidos, desilusão com estudos. Claro, não podemos esquecer do clip de compras nas grifes mais caras de Sao Paulo regadas a champagne. O filme tem um visual totalmente de estética publicitária, não que isso seja algo pejorativo. A fotografia de Marcelo Corpanni e bonita, marcando bem esse mundo de neon desencantado da grande metrópole paulistana. As 3 atrizes ate surpreendem em algumas cenas, valorizando bem o drama e a detonação. Se o roteiro tivesse uma maior densidade dramática e explorasse mais as personagens com menos obviedade, o filme poderia ter rendido muito mais.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

You and I

"You and I', de Nils Bökamp (2014) Drama alemão escrito e dirigido por Nils Bokamp, tem como tema a paixão platónica de um hetero pelo seu amigo gay. Jonas é um jovem fotografo de renome, que precisa preparar uma exposição para uma galeria. Ele convida o seu amigo Philip que ele não vê há muito tempo, para passar as ferias de verão em Uckermark, cidade rural no interior de Berlin. Jonas e hetero e Philip, gay. Jonas se aproveita da beleza de Philip e faz dele o seu modelo para a exposição, tirando fotos artísticas dele nu. No caminho, dão carona para Boris, um jovem polonês. Philip e Boris acabam tendo um caso, o que provoca ciúmes em Jonas. Com belas locações e linda fotografia, " You and I" é um prato cheio para voyeurs: os atores passam um terço do filme nus. O roteiro é bem singelo, poderia inclusive ter sido um curta, mas como o diretor resolveu fazer um longa com tão pouco material dramático, acabou esticando demais o filme, deixando-o bastante entediante e arrastado. Para os que acreditam no amor de um hetero por um gay, o filme é uma ótima oportunidade para sonhar com essa possibilidade. Para quem ama um romance com final feliz.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Speed Dating

"Speed dating", de Meghann Artes (2014) Nossa, há quanto tempo eu não assistia a um curta tão foto, tão lindo, tão divertido, tão gostoso, tão romântico! Que maravilha! Esse filme, que mistura atores na técnica do stop motion, e' uma verdadeira preciosidade! Exibida em dezenas de Festivais internacionais, e' uma homenagem a ' Amelie Poulain" e o seu universo lúdico e estético, e também uma homenagem a cinema mudo. O filme e todo sem diálogos, e mostra uma jovem tímida que resolve ir ate um evento de Speed dating, cheio de regras. Entre homens verdadeiramente asquerosos e arrogantes, ela encontra um ideal. Mas será mesmo o ideal? Obrigatório, uma aula de narrativa, concisa e poética. Dirigido por uma mulher, tecnicamente e' um verdadeiro primor: efeitos, fotografia, direção de arte e figurinos. Altamente recomendado! https://vimeo.com/145154247

Speed dating

"Speed dating", de Issac Feder (2007) Divertido curta americano, que participou de vários Festivais. A historia é bem simples, mas cativa bastante pela variedade de personagens. Um homem vai para um encontro Speed dating em um bar. A organizadora explica que cada um tem cinco minutos para se conectar, e após esse tempo, ela tocará uma sineta para que troquem de parceiros. Nesse meio tempo, o homem encontrara todo o tipo de mulher: feminista, machona, dramática, melindrosa, carente. Ate que surge uma mulher que ele acredita ser a ideal. Muito bom ver curtas simples (uma única locação), querendo ser apenas um curta e contar uma historia compacta ( são apenas 8 minutos, mas bastante divertido). Ótimo trabalho de composição dos atores. https://www.youtube.com/watch?v=meOfqy09YLc

Assassin's Creed

"Assassin's creed", de Justin Kurzel (20160 Em 2015, o Cineasta Justin Kurzel dirigiu " Macbeth", com Michael Fassbender e Marion Cotillard protagonizando a história celebrizada por Shakespeare. Os puristas odiaram a versão estilizada e publicaria de Justin Kurzel, mesmo assim, concorreu `a Palma de Ouro em Cannes, sem levar nada. Assistindo a " Assassin's creed", juntado de novo o Diretor e os atores, " Macbeth" pareceu ser um grande ensaio para essa adaptação dos jogos da Ubisoft. Confesso que nunca joguei o game, não fazia a mínima ideia do que se tratava a historia. Li a sinopse e me pareceu ser uma mistura de "Game of thrones", " Matrix" com " Sense8". Michael Fassbender interpreta Cal Lynch, um homem condenado a morte, mas que acaba sendo sequestrado por uma Organização cientifica ( sempre existira uma organização obscura nesse tipo de filmes, pasmem!). Lá, ela é usado como cobaia para uma experiência pelos cientistas Sofia ( Marion Cotillard) e Rikkin (Jeremy Irons), pai e filha. Eles identificaram pelo Dna de Cal, que ele e descendente direto de Aguilar, um representante do Assassin's creed na Época da Espanha da Inquisição, Sec XIV. Utilizado um equipamento chamado de Animus, eles conseguem fazer com que Cal se " teletransporte" espiritualmente ate o passado e incorpore em Aguilar. O motivo: eles querem ter em mãos a maçã de Eden, que dizem ter o Poder para libertar os homens da violência. Achei tudo bem filmado, mas uma chatice sem fim. Cenas de ação sem emoção, tudo muito burocrático e parece que ja vimos esse filme cem vezes, tudo muito obvio. Pode ser que o jogo tenha la as suas regras, mas achei as cosias bem sem graça mesmo. O que vale mesmo, é assistir Michael Fassbender mandando ver no papel principal, comprovando a sua versatilidade artística. Marion, Jeremy Irons e Charlotte Rampling estão super no automático. A trama não me cativou, as cenas de ação achei medias. Aguardem uma continuação, pois o final...sempre acaba assim, né?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mei

"Mei", de Arvin Chen (2006) Singela, mas belíssima história de amor ambientada em Taiwan, vencedor do prêmio de Melhor curta em Berlin em Nova York em 2006. Um jovem trabalha em um quiosque de macarrão chinês nas noites de Taiwan. O dono do quiosque colocou sua filha para trabalhar ali, depois que sua esposa o abandonou. A filha fala inglês e se comunica facilmente com os turistas. O rapaz ê apaixonado pela garota, mas ele ê introvertido e fica sem graça de falar com ela sobre os seus sentimentos. Atê o dia em que ela resolve ir morar nos Estados Unidos. Simples na execução, mas cheio de sentimentos, esse curta lembra os primeiros trabalhos de Won Kar Wai. O Diretor trabalha com olhares, pausas, fazendo com que o espectador entenda o que os personagens sentem somente observando para eles, sem necessidade de falas. A trilha sonora, a fotografia, tudo estudado nos mínimos detalhes. Um romance a moda antiga, apaixonante e repleto de melancolia. https://vimeo.com/8187367

domingo, 15 de janeiro de 2017

Soft

"Soft", de Simon Ellis (2006) Excelente curta inglês, vencedor de mais de 17 prêmios em importantes Festivais mundo afora, entre eles, o de Sundance. O filme tem como tema o bullying e a sociedade machista que impõe que os homens precisam ser valentes e jamais fraquejar perante o inimigo. O filme começa com um garoto apanhando de uma gangue de rua. Ele vai para casa e envergonhado, não se apresenta para o seu pai, pois teme que o pai, que sempre lhe deu uma educação onde a pessoa precisa se auto-defender dando porrada, lhe dê uma bronca. Porem o pai vai até o mercado comprar leite e no caminho, apanha da mesma gangue,e foge com medo. A gangue o acompanha até sua casa e ameaça tanto o pai quanto o filho. O filho entende finalmente que seu pai é um grande covarde e resolve ele mesmo tomar satisfação com a gangue. Com excelente atuação dos dois atores principais, o filme é um soco no estômago. Violento, tenso, e com uma excelente construção de personagens. A direção de Simon Ellis é enxuta e precisa, e o filme tem um tempo de duração (14 minutos) ideal, sem deixar barrigas. Recomendado. https://www.youtube.com/watch?v=Og1w2KrEgVg

Chronic

"Chronic", de Michel Franco (2015) O cineasta mexicano Michel Franco e' considerado o Michael Haneke do Mexico. Em seus filmes,ele gosta de provocar o espectador, indo ao limite para angustiar a plateia. Em " Daniel e Ana" e " Depois de Lucia", muitas das cenas provocam mal estar. Sao cenas de incesto, bullying, maus tratos. O ser humano na pior de suas possibilidades. Aqui em " Chronic" nao foi diferente. Franco se associou ao ator Tim Roth ( ambos se conheceram em Cannes, quando Franco saiu de la com o Premio de melhor filme da Mostra Um certo olhar.). Tim Roth interpreta David, um enfermeiro que cuida e pacientes terminais de cancer. Altruista, ele cuida de cada paciente como se fosse a pessoa mais importante de sua vida. Ate que um dia ele recebe uma notiicacao de assedio sexual. Visceral, o filme nao deve ser visto por pessoas que posssuem parentes ou amigos proximos em situacao semelhante. E' um filme que degrada a condicao humana. Em planos longos e fixos, vemos cenas de banhos em corpos esqualidos, diarreia, vomito e todo o tipo de exposicao para deixar o espectador nauseado. Os filmes de Michel Franco nao sao para qualquer um. Nao achei o filme merecedor da Palma de Ouro de melhor roteiro em Cannes 2015. O filme e' muito minimalista, quase nada acontece, poucos dialogos e o desfecho da trama e' ridiculo. Vale para ve rum belo trabalho de composicao de Tim Roth.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Convencendo o papai

"Winning dad", de Arthur Allen (2015) Escrito e dirigido por Arthur Allen, esse drama de baixo orçamento fala sobre homofobia e relações familiares. Colby e Rusty formam um jovem casal gay, cheio de planos. Colby quer ser um Chef de cozinha. O pai de Colby, Michael, não aceita o homossexualismo do filho e faz vista grossa. Como há muito tempo não se vêem, pai e filho combinam um acampamento. Colby leva Rusty, e o apresenta como sendo um amigo hetero. No entanto, no dia da viagem, Colby recebe um recado de que precisa conhecer um grande chef de cozinha. Assim, Rusty viaja com o pai do namorado, sozinhos. Durante o acampamento, Rusty revela para Michael que ele e' namorado do seu filho, Michael reage violentamente. Bastante verborragico, "Convencendo o papai" poderia render uma bela peca de teatro, com poucos personagens. Tenso e com bons dialogos, o filme tem boas interpretacoes, com excecao de Arthur Allen, o roteirista e diretor, que resolveu interpretar Rusty. E' dificil acreditar que o pai de Colby nao identifique que ele seja gay, pois Arthur Allen faz um Rusty totalmente afeminado. Tivesse sido mais sutil, a surpresa seria muito mais efetiva.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A festa de aniversário de Henry Gambler

"Henry Gambler's birthday party", de Stephen Cone (2016) Escrito e dirigido por Stephen Cone, "A festa de aniversário de Henry Glambler" venceu vários prêmios em festivais independentes americanos, entre ele, melhor filme em Chicago. O filme foca no dia de aniversário de 17 anos de Henry Gambler. Ele é filho de um Pastor, e toda a família é cristã fervorosa. Porém, Henry tem um grande conflito: não consegue assumir a sua homossexualidade. A sua mãe está infeliz no casamento, e sua irmã, que perdeu a virgindade a pouco tempo, está também mentalmente perturbada. OS amigos da igreja cristã de Henry chegam para o aniversário, entre eles Logan, o único gay da turma, que sofre bullying e rejeição de todos, inclusive de Henry. O filme é um interessante estudo de personagens. O filme não foca o seu foco apenas em Henry, e sim, em todos os presentes na festa: adultos e jovens. É um filme que fala sobre culpa e a mentira, e como a religião é usada para encobrir mentiras. Os adultos se excitam com as garotas que tomam banho de piscina. Os garotos transam escondido com as meninas. Um rapaz em tendências suicidas. Uma mulher extremamente religiosa se assusta com a permissividade de todos e diz que todos pagarão pelos seus atos. A grande habilidade do roteiro e do diretor Stephen Cone é lidar com dezenas de personagens. Mas esse também talvez seja o seu maior problema: pulverizar demais o drama, fazendo apenas pequenos flashes da vida de cada um. Os jovens atores são todos ótimos, e o filme tem aquele olhar melancólico sobre uma geração desnorteada e perdida em seu tempo.

Um homem chamado Ove

"En man som heter Ove", de Hannes Holm (2016) Quem diria que um dia a Suécia faria um melodrama que me fez chorar litros? Na lista dos pré-selecionados para o Oscar de filme estrangeiro de 2017, "Um homem chamado Ove" faz rir e chorar. Ove acabou de perder sua esposa e o seu emprego. Solitário, o recém-aposentado é visto pelos moradores do condomínio como um velho rabugento. Desgostoso da vida, Ove resolve se matar. Mas a chegada de uma família com dois filhos fará Ove mudar a perspectiva em relação à sua vida. Baseado em um livro, "Um homem chamado Ove" é um belo retrato sobre a solidão na vida dos idosos. O filme faz uma referência a "Morangos silvestres", obra-prima de Bergman: Ove relembra momentos da sua juventude, se relacionando com seu pai, sua esposa Sonja e a busca pelo sonho de ser feliz. Mas a vida o tratou mal, repleto de tragédias pessoais que o fizeram ser uma pessoa amargurada. Pode ser que o filme exagere demais no melodara, forçando muitas viradas na história. Ma sé bem narrada, bem dirigida e principalmente, com um elenco fabuloso capitaneado por um ator extraordinário, Rolf Lassgård, no papel do protagonista. Alternando momentos de divertida ranzinzice e de melancolia, Rolf Lassgård mostra para a platéia o oficio do ator, que é simplesmente emocionar o público.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

O banquete de Stephen

"The feast of Stephen", de James Franco (2009) Vencedor do prêmio de melhor filme na Mostra lgbts Teddy Bear em Berlin de 2009, "The feast of Stephen" causou polêmica pois muitos acharam que o filme só ganhou o prêmio por conta do nome de James Franco, o que traria glamour ao evento em Berlin. Concordo: o filme, de 4 minutos, e rodado em preto e branco, é tecnicamente extremamente singelo. A idéia é até curiosa: Stephen é um jovem nerd gay, que assiste uns garotos jogando basquete numa quadra de rua. De repente, Stephen começa a delirar: imagina todos os meninos jogando bola totalmente nus. Quando percebem que estão sendo vistos pelo jovem gay, os rapazes vão atrás dele, e o socam. No final, o estupram. E pasmem, Stephen ama! Para a turma que reclama da cultura do estupro, esse filme é um prato cheio. Vale pela discussão. Como cinema, James Franco vai ficar devendo. As cenas do garoto levando porrada são mal feitas. O filme me lembra um grande comercial que o fotógrafo e diretor Herb Ritts fazia nos anos 80 e 90, porém, sem o glamour necessário. Tivesse apostado num filme mais 'Sujo", James Franco teria causado mais impacto.

Riocorrente

"Riocorrente", de Paulo Sacramento (2013) Com um vasto currículo como montador e produtor, Paulo Sacramento, que havia dirigido o premiado documentário "O prisioneiro da grade de ferro", realiza em 2013 o seu primeiro longa de ficção, "Riocorrente". A última imagem do filme é do Rio Tietê pegando fogo. Pois o filme é todo assim, repleto de simbolismos que refletem as emoções de 4 personagens da grande metrópole que é São Paulo. Carlos (Lee Taylor) trabalha em uma oficina mecânica e tem o hábito de roubar carros para retirar suas peças. Marcelo (Roberto Audio) é um jornalista. Renata ( Simone Iliescu) namora os dois. Nesse triângulo amoroso, ainda sobra espaço para contar a história do menino negro Exu ( sim, o nome é esse mesmo!!), que é adotado por Carlos e assim como ele, é inconformado com a vida e sai pelas ruas riscando chassis de automóveis. O filme é todo dessa forma como contei na sinopse: apático, frio, experimental, simbólico. O roteiro é desenvolvido de forma muito superficial, o que interessa mesmo é mostrar a desilusão de se morar numa cidade grande, sem vida, sem amor, sem esperanças. Como o poster diz "A hora é agora". O filme não me seduziu infelizmente, faltou alma aos personagens, que se relacionam totalmente frios, mesmo nas cenas de sexo o envolvimento é quase nulo. O que é de fato interessante no filme são as imagens metafóricas que surgem ao longo da narrativa, a montagem e a fotografia, esses dois últimos premiados no Festival de Brasília.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sauna dos mortos- O conto de fadas

"Sauna - The dead. A fairy tale", de Tom Frederic (2016) Divertido curta de humor negro, sobre um gay que vai até uma sauna fazer pegação e de repente descobre que todos os frequentadores viraram zumbis. O único que ainda não está contaminado é um indiano que o protagonista dispensou momentos antes. O filme é uma hilária metáfora sobre o culto ao corpo e à beleza masculina, e faz uma grotesca paródia de "Walking dead", com efeitos e maquiagem de quinta categoria. Esse lado trash do filme acaba sendo o seu maior charme. Exibido em vários Festivais, é uma brincadeira com gêneros muito bem-vinda, e filmada com baixo orçamento, rodado inteiramente dentro da sauna gay.

Creepy

"Kurîpî: Itsuwari no rinjin", de Kiyoshi Kurosawa (2016) Belo filme de suspense psicológico japonês, na linha de um "Silêncio dos inocentes", "Creepy" tinha tudo para ser um pequeno clássico asiático, não fossem 2 questões: é muito longo ( 2:10 hrs) e o roteiro faz um retrato completamente ridicularizado dos policiais, que agem da forma mais idiota possível. Todos aqueles clichês de filmes de terror, dos mais vagabundos, acontece aqui com os policias. Se o espectador abstrair essas inverossimilhanças, poderá se divertir e se assustar bastante com o filme. Takakura e sua esposa Yasuko se mudam para uma nova casa, após uma tragédia profissional na vida de Takakura, ex-detetive: ema refém morreu sob os seus cuidados. Traumatizado, ele resolve abandonar tudo e se tornar professor. A esposa Yasuko entrega presentes para os vizinhos, uma forma de desejar boas vindas, mas se depara com a animosidade de todos eles, principalmente de Nishino, casado e pai de uma filha adolescente. Takakura é acionado por um detetive para tomar conta de um caso policial: uma familía desapareceu, e a polícia suspeita de um serial killer que age na região. Muito bem dirigido, com ótimos atores, o filme evita o óbvio na construção do assassino: desde cedo, já sabemos quem é. O que espertamente o roteiro constrói, é como o espectador irá lidar com o assassino, uma vez que ele sabe antes do que os personagens. Mas como falei antes, as atitudes de alguns personagens são extremamente irritantes, a ponto de questionarmos tudo o que estamos vendo. De qualquer forma, a construção do suspense é muito boa, e na parte final a gente realmente fica tenso. Ótima atuação de Teruyuki Kagawa como Nichiino.

Cigarros e café

"Un cartus de kent si un pachet de cafea", de Cristi Puiu (2004) Diretor de "Sieranevada" e "A morte do Sr Lazarescu", o romeno Cristi Puiu realizou em 2004 esse excelente curta, vencedor do Urso de Ouro em Berlin de melhor filme. O filme é uma parábola sobre o fim do comunismo, e como as velhas ordens precisam se adaptar aos novos tempos do capitalismo. Um pai e seu filho se encontram em um café. O pai trabalho por mais de 30 anos como motorista no regime comunista, e agora, com o fim da ditadura, está desempregado. Ele pede um emprego para o seu filho, que diz estar atrasado para o trabalho e fala ao pai que talvez consiga lhe arranjar um emprego inferior, de segurança noturno. Melancólico, mesmo que com traços de fino humor, esse drama tem diálogos marcantes e que comovem por retratar o fim dos sonhos e a frustração que se segue quando a pessoa atinge a terceira idade sem ter nada construído. O filme faz uma severa crítica ao Comunismo, ao mesmo tempo também cutuca o capitalismo. Como sobreviver a um mundo incerto? https://www.youtube.com/watch?time_continue=658&v=dBkHOuz8DAQ

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sniffer

Sniffer", de Bobbie Peers (2006) Grande vencedor da Palma de Ouro de 2006 para curtas de ficção, "Sniffer" é uma delirante fantasia sobre um mundo distópico, repleto de humor negro. Nesse universo fantástico, a gravidade é zero. Por causa disso, as pessoas precisam calçar botas pesadas ( lembram da menina que calça boots pesados em "O lar das crianças peculiares", de Tim Burton? É igual). Um homem trabalha em uma fábrica de desodorantes, e sua missão é cheirar axilas suadas de homens que estão fazendo exercícios. Um dia, ele vê um pombo que morre ao tentar sair pela janela. Vislumbrado com o vôo do pássaro, o homem decide se livrar de suas botas. Criativo e inteligente, esse filme sem diálogos é um primor de realização. É simples, e com muita influência do cinema de Jean Pierre Jeunet ( com as grandes angulares e as personagens totalmente bizarras). Imperdível. https://www.youtube.com/watch?v=gsoKxTnSzNg

Eu fico loko

"Eu fico Loko", de Bruno Garotti (2016) Bom, todo o mundo já sabe que "Eu fico loko" é a cinebiografia de Christian Figueiredo, que tem um canal no youtube homônimo com mais de 7 milhões de seguidores. O filme narra 3 fases na vida de Christian: criança, adolescente e pós adolescente, interpretado nessa última fase por ele mesmo. Tanto criança quanto adolescente, Christian sofre Bullying na escola. Adolescente, ele se apaixona, leva tôco, briga com seu melhor amigo e tenta resolver tudo com a ajuda de sua avó moderninha (Suely Franco, genial como sempre). Quando as coisas parecem que irão explodir, ele tem a id;eia de criar o Canal 'Eu fico loko". O resto, é o que todos já sabemos. Não tenho como falar desse filme sem parabenizar a todos os envolvidos, que são pessoas queridas do Cinema nacional. Não é puxa-saquismo, é o reconhecimento do quanto estamos mandando muito bem na parte técnica, por isso ninguém mais pode falar mal do cinema brasileiro. O nível é muito alto. A primeira direção de um longa está com cara de gente grande, cheio de segurança, nas mãos do Bruno Garotti. A fotografia criativa, inteligente e se comunicando com o público adolescente, perfeita de Dante Belluti. Direção de arte, som, edição, e ponto mais do que positivo, a trilha sonora envolvente e pulsante. O roteiro escrito pelo próprio Garotti com Sylvio Gonçalvez traz elementos de grandes clássicos adolescentes, daqueles que a gente guarda no coração e não esquece mais: "Curtindo a vida adoidado, "A hora de voltar", "As vantagens de ser invisível", "Carrie, a estranha", são alguns que identifiquei. O filme faz parte de um gênero que eu gosto muito, "o "Feel good movie". São elementos de drama, de melancolia, de redenção e de virada do protagonista , em sua descoberta espiritual, que transcende a tela e conquista o público.

O bebê de Bridget Jones

"Bridget Jones's baby", de Sharon Maguire (2016) Esse terceiro filme da franquia de sucesso "O diário de Bridget Jones, baseado no livro de Helen Fielding, foi lançado 12 anos depois do segundo filme. De lá para cá, a atriz Renée Zellweger fez uma cirurgia plástica que a tornou irreconhecível na personagem. A única solução do roteiro, co-escrito pela atriz Emma Thompson, é fazer de Bridget uma mulher totalmente repaginada e mais bonita aos 43 anos de idade. Corpo malhado, rosto esticado e com muita disposição. Mas internamente, ela continua a mesma: insegura, carente, atrapalhada e indecisa no amor. O que diferencia esse filme dos outros ( que seguem exatamente a mesma fórmula de Bridget indecisa entre o amor do sisudo Mark Darcy ( Colin Firth) e o galã bobo Daniel Clever (Hugh Grant)) é que nesse filme, o personagem de Hugh Grant está morto ( solução encontrada pelos roteiristas, pois o ator não quiz participar desse filme). No lugar dele, entra Patrick Dempsey, ( o Dr Dereck de "Grey's anatomy"), no papel de Jack, um homem que Bridget conhece quando sai de férias para um concerto de rock e acaba tendo uma relação fugaz com ele. Bridget começa o filme separada de Mark. Quando ela engravida, ficam todos na dúvida quem é o pai. E o filme, entre erros e acertos de roteiro, deixa essa dúvida até o último momento. O que mais gosto no filme, é a discussão sobre a chegada da meia idade: nos outros filmes, Bridget era uma trintona com suas crises de profissão e de amor. Agora, aos 43, continua com as mesmas crises, porém todos que estão à sua volta estão mais velhos. Ela disputa o seu espaço profissional com uma geração mais jovem, e o filme aborda a contradição entre "a voz da experiência" e "o frescor da juventude". No mais, é um festival de ótimos atores de apoio ( Jim Broadbent, Emma Thompson, Gemma Jones), dirigidos pela cineasta do primeiro filme da série, Sharon Maguire. A longa duração do filme ( 2:03 hrs) acabou trazendo barrigas pra narrativa, que fica arrastada. Fiquei também com uma impressão de certo "Cansaço"por parte dos atores, mas deve ser apenas impressão mesmo, ou tem a ver com os personagens. A trilha sonora, repleta de clássicos Disco dos anos 70, é outra delícia a ser aproveitada pelos fãs de Bridget.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Moana- Um mar de aventuras

"Moana", de Ron Clements e John Musker (2016) Baseado em uma mitologia neo-zelandesa, "Moana" narra a história de uma princesa de uma Ilha da Polinésia que precisa salvar o seu povo de um desastre ambiental, já que a ilha onde moram está sem dar frutos em peixes. Seu pai a proíbe de navegar pelos mares, e logo Moana descobre porquê. A tribo era de uma linhagem de exploradores do mar, mas o pai de Moana, quando jovem, explorou o mar e acabou causando a morte de um amigo. ele diz que o mar é traiçoeiro, e existe uma razão para isso. Acredita-se que um Semi-deus, Maui ( na voz de Dwayne Johnson), roubou o coração da Deusa Re Fit, para ter Poder, e isso provocou a ira de um Deus do mal, que acabou fazendo com que Maui focasse amaldiçoado. Para salvar seu povo, Moana foge de canoa para encontrar Maui, recuperar o coração de Te Fit e levar seu povo para uma Ilha que proveja sustento para sua tribo. "Moana" é repleto de músicas, bem ao gosto de Ron Clements e John Musker, que dirigiram "Alladim", "A pequena sereia" e "A princesa e o sapo". Como em todas as últimas animações, a protagonista é uma mulher, cheia de vontades e de confiança em seu trabalho. A animação é bastante colorida, os efeitos muito bons, sem dúvida alguma, e nos créditos existem 4 brasileiros. Achei apenas o filme longo, 1:47 hrs, se tivesse uns 15 minutos a menos seria muito mais dinâmico e divertido. O filme é corajoso, pois apresenta a morte de uma personagem. Ele também é menos engraçado que outros filmes dos diretores. O humor fica mais no personagem da galinha Heihei, uma ave muito doida, que parece estar drogada. Moana é uma ótima personagem e deve fazer bastante sucesso com as crianças. Só não achei o Maui assim tão carismático, o seu mau humor não me conquistou.

Kate plays Christine

"Kate plays Christine", de Robert Greene (2016) Vencedor de melhor roteiro de documentário em Sundance 2016, além de outros prêmios em Festivais mundo afora, "Kate plays Christine" é um filme obrigatório a todos os Atores que estudam o Método e fazem estudo de composição de personagem. O filme é uma mescla de documentário e de reconstituição ficcional de fatos reais da vida de Christine Chubbuck, uma apresentadora de televisão de um Canal de tv na Flórida que se suicidou ao vivo em 1974 em frente às câmeras. O Diretor faz uma audição e escolhe a atriz Kate Lyn Sheil para o papel de Christine. Como não existe material de vídeo de Christine, Kate entrevista pessoas que conviveram com Christine na época para tentar montar um perfil da "personagem"que ela irá interpretar, pois ela quer ser a mais realista possível. Ela faz pesquisas e tem uma triste constatação: a memória se apaga com o tempo. Muitas pessoas nunca ouviram falar de Christine, e quem convivei com ela se lembra muito pouco. O vídeo com o suicídio de Chrstine não existe, e reza a lenda que está em um cofre de uma emissora de televisão.Um personagem diz a seguinte frase: Nós morremos duas vezes. A primeira, a morte física. A segunda, quando o sue nome é citado pela última vez". Os atores que interpretam personagens no filme fazem relato sobre a vida artística e pessoal. Tem um ator que diz que entende o suicídio de Chrtsine, pois ele como artista precisa lidar diariamente com muitas rejeições nos testes que faz, e isso tudo o leva à depressão. Christine não tinha amigos, nunca namorou e morreu virgem. Na época, segundo um dos entrevistados, nos anos 70, a palavra "depressão" era pouco usada em termos médicos, e se falava em "ataque de nervos". Ninguém dava atenção ao que ela estava passando, e assim Christine foi aos poucos planejando a sua morte. Foi em uma loja de armas comprar um revólver ( o filme faz uma crítica à facilidade de compra de armas), visitou o corpo de bombeiros e pesquisou como as pessoas se suicidavam com armas. O mais contundente no filme, é o processo de composição que a atriz Kate faz em relação à Chrstine. De início muito frustrada e incomodada por não encontrar a "persona" da biografada, aos poucos ela vai se inteirando. ela se veste, coloca peruca, lentes de contato. Sai para as ruas, se fecha pro mundo, e vai buscando quem é essa pessoa. No final, é assustador o quanto que Kate se desfez de si mesma e passa a ser Chrtsine. Atores que não acreditam em método vão odiar esse filme e achar tudo uma loucura da cabeça da atriz Kate Lyn. Acho um filme incrível para ser visto e discutido pela classe, e entender os limites do Ator para compor um personagem. Recomendadíssimo.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Nove crônicas para um coração aos berros

"Nove crônicas para um coração aos berros", de Gustavo Galvão (2012) Escrito por Gustavo Galvão e Cristiane Oliveira ( A diretora do ótimo "A mulher do pai"), é o primeiro longa de Gustavo Galvão, realizador do bom drama policial "Uma boa dose de violência qualquer". Gustavo é de Brasília, e dirigiu curtas premiadíssimos. Em "Nove crônicas..", Gustavo usou de suas referências cinéfílas e resolveu homenagear de uma tacada só vários cineastas: Wong Kar Wai, Jim Jarmusch, Inarritu, Robert Altman, entre outros. Infelizmente, a mistura não deu muito certo. Em primeiro lugar, pelo excesso de histórias e personagens a serem apresentados. Com 93 minutos, fica difícil desenvolver cada um como deveria. Alguns episódios são melhor formatados do que outros, que acabam ficando meio que pelo caminho, sem desfecho. A fotografia em muitos momentos é bastante escura, e o som captado também é bastante falho. Com tantos problemas técnicos, e com um roteiro que não seduz ( as histórias são muito apáticas, e nenhum personagem é interessante o suficiente para merecer a atenção maior do espectador) , o trunfo do filme acaba sendo o enorme elenco, de altíssimo nível. Julio Andrade, Denise Weimberg, Marat Descartes, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Felipe Kannemberg, além das ótimas atrizes paulistas Paula Cohen e Rita Batata, entre outros. Uma pena de verdade, que esses atores não tenham sido melhor aproveitados nos papéis O filme narra 9 histórias entrecruzadas ( olha o Altman e Inarritu aí gente!), todas versando sobre a falta de perspectiva, a frieza dos relacionamentos, a melancolia e depressão na grande cidade, a frustração, enfim, só sentimentos negativos em relação ao ser humano e o ambiente que o cerca. O ritmo é muito lento, e acredito que a apatia do filme tenha a ver com a proposta do projeto. É um verdadeiro universo de pessoas "cinzas", sem "Vida", mortas por dentro e emocionalmente. Ainda assim, o filme ganhou prêmios em Festivais Internacionais. O filme seguinte de Gustavo Galvão, "Uma boa dose de violência qualquer", veio redimir a sua filmografia, aí sim, fazendo alusão aos Irmãos Coen e o gênero policial/Faroeste com bastante habilidade.

Estrelas além do tempo

'Hidden figures", de Theodore Melfi (2016) Baseado em uma incrível história real, "Estrelas além do tempo" reúne um elenco fabuloso às voltas com segregação racial e corrida espacial nos anos 60. O filme vai dos anos 20 a 60, e acompanhamos a história de mulheres negras gênias na matemática, que por questão da forte segregação racial nos Eatados Unidos, trabalhavam em uma sala isolada e longe dos outros funcionários da Nasa. Katherine ( Taraji P. Henson, da nova versão de "Karate kid"), Dorothy ( Octavia Spencer, de "Histórias cruzadas") e Mary (Janelle Monáe) são amigas negras, independentes e que almejam subir na vida. Mas o ambiente masculino e segregador aonde trabalham, na Nasa de 1960, as impede de querer almejar um sucesso maior. Mas aos poucos, todos vão percebendo o quanto essas mulheres têm a oferecer e a ajudar o Governo a segui adiante na corrida espacial, fazendo uma grande alusão à Guerra fria contra a Rússia. O filme tem uma estrutura narrativa toda calcada em cima do melodrama: uma das mulheres é viuva e precisa cuidar do trabalho e de suas 3 filhas; a outra é casada com um negro simpatizante do movimento dos Panteras negras, e a terceira é também viúva que sonha em se promover como supervisora, mas a sua chefa, Vivian (Kirsten Dunst), impede de qualquer jeito. Mesmo sabendo que o filme é baseado em história real, fiquei pensando o quanto que os roteiristas ficcionalizaram na histórias dessas mulheres, pois muita coisa aconteceu meio que por sorte e pela intromissão do Coronel Al Harrison (Kevin Costner), que com o seu bom coração, foi abrindo aos poucos um espaço para que essas mulheres exercessem seus papéis independente de cor e de sexo. O filme é emocionante e a gente torce o tempo todo pelas heroínas. O que me incomoda como dramaturgia é que nos filmes americanos de segregação racial, todo mundo é vilão. A trilha sonora e a produção são do cantor pop americano Pharrel Willians. É um filme que acaba sendo óbvio, mas bem dirigido e com belas imagens. Tecnicamente, é primoroso: fotografia, edição, direção de arte e maquiagem. Ah, e 20 minutos a menos teria sido mais interessante. Quem amou "Histórias cruzadas", vai adorar esse filme.

Moonlight- Sob o brilho do luar

Moonlight", de Barry Jenkins (2016) O que mais me causou surpresa ao assistir a esse filme extraordinário, é descobrir que o tema do filme é a saída do armário do protagonista, dentro de um ambiente de gueto violento e de traficantes. Eu pouco sabia sobre a história do filme, e fiquei impressionado com a sua força, a mesma impressão que tive ao assistir a "Faça a coisa certa", de Spike Lee, e "Happy together", de Wong Kar Wai. De cara, você tem certeza de estar assistindo a um filme regido por um grande talento. Barry Jenkins é um cineasta que sabe o que está fazendo: dirige esplendorosamente o seu elenco, escolhe as músicas certas para as cenas, domina como poucos a narrativa e é assumidamente um cinéfilo de carteirinha. Em uam entrevista, ele disse que a sua inspiração para o filme veio de "Três tempos", de Hou Hsiao Hseng, uma história de amor que acontece em 3 épocas distintas. "Moonlight" é uma força da natureza. Tem um diálogo dito por um personagem que é foda: "Os negros quando estão sob a luz do luar, ficam azuis"( uma referência ao titulo do filme, "Moonlight". O filme é dividido em 3 capítulos: Chiron, o protagonista, é chamado de "Little"por seus colegas de escola. Ele sofre bullying, e por conta disso, se transforma em um garoto instrospectivo e sofredor. A sua mãe é viciada em crack, e acaba sendo adotado por um traficante da região. Chiron tem um único amigo, Kevin. Com o passar dos anos, Chiron vai tentando sobreviver nessa verdadeira selva de pedra que é a comunidade em que mora em Miami, repleto de marginais. Difícil falar do filme e não soltar spoilers, portanto não me atentarei ao filme em si, mas à parte técnica. A fotografia de James Laxton é primorosa ( e pasmem, ele fotografou para os filmes trash de Kevin Smith), a trilha sonora é foda, alternando hip hops com canções nostálgicas anos 60 ( olha o Wong Kar Wai aí)..mas o verdadeiro turbilhão do filme vai ao elenco sensacional. Os 3 atores que interpretam Chiron são brilhantes; Mahershala Ali que interpreta o mentor /traficante é muito foda...e Naomi Harris, que faz a mãe de Chiron, nossa mãe, surtei. Essa vai ganhar todos os prêmios de atriz coadjuvante. O filme já ganhou mais de 100 prêmios mundo afora, e com certeza, aumentará ainda mais essa coleção, merecidamente. Várias cenas antológicas, principalmente a da praia, com Chiron e Kevin adolescentes..uma aula de cinema.

La la land- Cantando estações

La la land", de Damien Chazelle (2016) Como é possível que um Diretor/Roteirista consiga realizar um filme ainda mais primoroso que o anterior "Whiplash"? Damien Chazelle é um gênio. "La la land" é daqueles filmes que ficam para sempre no coração. Ele é mágico, romântico, lúdico, encantador, nostálgico e emocionante. A gente de verdade torce pelos personagens, pelo amor deles, pelo sucesso deles. Para quem odeia musical, não assista. Ele é uma homenagem aos filmes dos anos 40, onde as pessoas do nada começavam a cantar, dançar e depois voltavam ao normal. Sempre amei esse caráter surrealista dos musicais. Aqui a homenagem é total aos filmes de Stanley Donen, e porquê não, Jacques Demy e "os guarda-chuvas do amor" , com todo o seu colorido que parece até um conto de fadas. A direção de arte, a maquiagem, figurino, tudo exageradamente colorido, inclusive os espetaculares pôres do sol de Los Angeles, só comparável à Luz elaborada por Vitorio Storaro na fantasia musical de Coppola, "Do fundo do coração". O filme é de Ryan Gosling e Emma Stone, absolutamente entregues à técnica do Musical: cantam e dançam divinamente, e com muita graciosidade. Impossível não se apaixonar pelos dois. O filme fala do lado cruel da indústria de cinema e da música: até onde devemos lutar por um lugar ao sol? As dificuldades da profissão são tão grandes, que acaba fazendo as pessoas duvidarem de seu talento. Sebastian ( Ryan Gosling) e Mia ( Emma Stone) se conhecem por um acaso. Ele tem o sonho de abrir uma casa noturna especializada em jazz de raiz. Ela, uma aspirante à atriz. Porém, eles só dão com a cara na porta. Que outro lugar que não Hollywood para ir em busca de um sonho? O filme tem uma estrutura dividida em capítulos, designadas através das mudanças das estações do ano. O filme tem tantas cenas memoráveis e brilhantes, e a trilha sonora é tão linda ( a música tema, 'City of stars", é de arrepiar), que destaco uma cena que não me saiu mais da cabeça: quando eles se reencontram ao som de "Take on me", do A-ha. Ali, definitivamente, eu chorei. Outro momento de cortar os pulsos é o desfecho, que aula de cinema!!! Para se assistir muitas e muitas vezes, em tela grande, som alto e estéreo!!!! Ah, e nossa, como se vende bem a cidade de Los Angeles com esse filme! Só locações fodas!!!!!

Cercas

"Fences", de Denzel Washington (2016) Adaptação da peça teatral "Fences", exibida pela 1a vez na Broadway em 1987, ganhando o Tony de melhor espetáculo. Em 2010, foi montada uma nova versão na Broadway, dessa vez com Denzel Washington e Viola Davis nos papéis principais. Ambos venceram os Tonys de interpretação. Denzel comprou os direitos da peça e dirigiu a versão cinematográfica, escalando ele e Viola Davis nos mesmos papéis que interpretaram nos palcos. Ambientado em 1950, Pittsburgh, Pennsylvania, narra a história de Troy ( Denzel), um coletor de lixo casado com Rose ( Viola Davis). Troy tem 3 filhos, cada um de uma relação: Gabe, ex-soldado e que retornou da guerra com sequelas psicológicas; Lyon, um músico, e Cory, o mais novo, filho dele com Rose. Cory sonha em ser jogador de baseball, mas Troy o impede, dizendo que mais jovem, também foi jogador de baseball, mas tudo o que veio depois foram frustrações. Troy educa os filhos com mão de ferro, apesar dos protestos de Rose. O que Troy quer, no fundo, é que todos os filhos tenham um futuro melhor, mas a forma como ele expressa esse desejo é incompreendido por todos. Longo ( 2:20 Hrs), "Fences" não esconde a sua origem teatral: o filme é inteiramente dialogado, em poucos cenários. Parece que estamos vendo os personagens em um grande palco. Cenas longas, textos gigantes e as falas muitas vezes, com um peso literário que não condiz com o naturalismo do cinema e das condições sociais daquela família. Mas o grande trunfo do filme é a performance do elenco. Denzel Washington na direção, apostou na força do elenco e evitou malabarismos técnicos. Como Ator, ele está irrepreensível. O que pesa contra ele é o seu personagem, extremamente antipático e irritante. Viola Davis é brilhante, e cada cena onde ela aparece, o filme cresce. O que não entendo é porquê ela está sendo indicada para coadjuvante, quando na verdade p seu papel é de protagonista. No último ato, ela protagoniza por pelo menos 20 minutos. A fotografia e a direção de arte são corretas, trazendo elementos dramáticos e melancólicos para o drama: uma casa de classe média baixa, cores frias, permitindo um sol apenas no último momento. Para o espectador que gosta de um belo texto com bons diálogos, e deseja ver grandes interpretações, "Cercas" é uma boa pedida. Só precisa de paciência para enfrentar um verdadeiro épico verbalizado. A cerca que Troy constrói durante anos, para cercar a sua casa, é uma metáfora sobre "manter" dentro do seu domínio os seus entes queridos, sob as suas regras.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Seu pior pesadelo

"Der Nachtmahr ", de Achim Bornhak (2015) Essa drama com realismo fantástico alemão arrebatou no Fantaspoa 2015 o prêmio de melhor filme, e também foi selecionado para o prestigiado Festival de Locarno. No Imdb tem uma nota boa, além de receber ótimas críticas dos usuários. Fora isso, o filme traz referências de "Et, o extraterrestre", e homenageia os anos 80, com muitos sintetizadores e visual da época. Mas fui enganado. Achei que me divertiria com o filme e o acharia um cult para fãs de fantasia. Tina é uma adolescente que curte raves, drogas, bebidas e as amizades com galera. Uma noite, após muitas drogas e musica eletrônica, Tina vê uma criatura estranha no meio dos arbustos. Ao voltar para casa, a criatura está ali. Tina se desespera, fala com seus pais, mas eles nada vêem. Aos poucos, todos vão achando que Tina está ficando doida, e ela acaba sendo atendida por um psiquiatra. Mas o que ela não esperava, é que certo dia, todos vêem a criatura. "Seu pior pesadelo" tinha tudo para ser um filme bacana. Mas a direção não ajuda. Achim Bornhak , que também escreveu o roteiro, filma quase tudo em grande angular, e isso é péssimo para esse filme, que tinha que ter um clima de mistério e suspense. Os atores são muito crus, e zero carisma. O ritmo é arrastado, e o que deveria ser o mais instigante, que é a criatura, é bastante mal feita. A criatura é usada como metáfora dos medos e conflitos de uma adolescente que procura o seu espaço no mundo. Mas esse simbolismo não foi bem articulado. Queria muito ter curtido o filme, mas infelizmente, ficou na promessa.

Partisan

"Partisan", de Ariel Kleiman (2015) Denso drama australiano, vencedor do prêmio de melhor fotografia em Sundance 2015. Ambientado em uma época e lugar indefinidos, narra a história de Gregori ( Vincent Cassel), um lobo solitário que arregimenta mulheres abandonadas por homens que as engravidaram e as traz até a sua "comunidade". Lá, uma espécie de harém, todas as mulheres são esposas de Gregori, assim como os filhos dessas mulheres consideram Gregori como seu pai. Gregori tem uma missão: ensinar as crianças a manusear armas e se tornarem assassinas. Ele envia cada uma em uma missão para matar os homens que assediaram sexualmente as mulheres. Entre as crianças, está Alexander, que aos poucos, começa a questionar a filosofia de vida de Gregori. O filme tem uma tema extremamente polêmico, que é o de colocar as crianças como um exército de assassinas, mostrando cenas onde elas matam friamente as suas vítimas. Por conta disso, não é um filme fácil de se recomendar. É pesado, soturno, violento, muito triste. E também, com um ritmo muito lento. O filme parece que não vai acabar nunca. O destaque fica sendo mesmo a bela fotografia, mostrando um mundo feio e triste, apesar das cores da comunidade. E também o trabalho do elenco, em especial o de Vincent Cassel e o de Jeremy Chabriel, no papel do pequeno Alexander. Esse menino será uma boa promessa em trabalhos futuros.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Mais sombrio que a meia noite

"Più buio di mezzanotte", de Sebastiano Riso (2014) Exibido em competição na Semana da crítica de Cannes 2014, esse filme de estréia do italiano Sebastiano Riso é uma cinebiografia da famosa Drag Queen Fuxia, porém se limitando a contar a sua história apenas na fase adolescente, quando aos 14 anos de idade, resolveu fugir de casa e morar na rua. Davide mora com seus pais e seu irmão em um apartamento classe média em Catania. Aos 14 anos, ele continuamente sofre bullying de seu pai pela sua aparência andrógina e sua extrema feminilidade. Davide foge de casa, e é acolhido na rua por travestis e michês. Para sobreviver, Davide acaba sendo agenciado por um cafetão. Seu sonho é ser artista e cantora. O filme tem uma história interessante e de coragem, e tinha tudo para ser um relato emocionado de uma pessoa que apenas quer ser aceita do jeito que é. No entanto, o cineasta Sebastiano Riso exagerou no retrato do grupo Lgtb que faz parte da vida de Davide. São todos muito caricatos. Tudo parece uma eterna festa, e a cena deles roubando centenas de objetos no supermercado e nenhum segurança dando conta, é totalmente implausível. O roteiro não consegue trabalhar com interesse a vida de Davide, e as cenas se sucedem burocraticamente, sem emoção. é uma pena, talvez com um diretor mais experiente esse tema tivesse tido uma força mais contundente. O que realmente vale a pena, é a performance de Davide Capone, no papel principal. É um papel dificílimo, e mesmo com caricaturas, Davide consegue trazer certa humanidade e conflito interno.

As pequenas margaridas

"Sedmikrásky ", de Vera Chytilová (1966) Fiquei impressionado ao terminar de assistir a esse filme realizado em 1966 na Tchekoslovaquia. A cineasta e roteirista Vera Chytilová foi extremamente corajosa ao fazer essa parábola durante o regime comunista em seu País. Tanto, que o filme foi banido pelo Governo, e Vera Chytilová impedida de exercer a sua profissão até o ano de 1975. "As pequenas margaridas' é um filme difícil de tentar fazer qualquer tipo de explicação mais lógica. Está aberto a muitas interpretações. A mais clara, seria uma crítica ao regime comunista, contra o belicismo, contra a liberdade e contra a sociedade machista. Muitos "contras' que as duas personagens, as jovens Marias, encontram em sua frente. Elas decidem que as pessoas e o mundo se tornaram maus, e portanto, elas também agirão como meninas más. Elas simplesmente anarquizam tudo o que vêem pela frente. Destroem, quebram regras, seduzem homens mais velhos e depois os dispensam. O filme é composto por vários sketches, surrealistas e experimentais. A extrema criatividade da cineasta Vera Chytilová faz com que ela trabalhe nas composições de quadro, na edição, com animação, com fotografia e cores d euma forma extremamente livre e sem amarras ou filiação a qualquer tipo de conceituação de cinema narrativo. Vale tudo. Talvez esse seja o grande tema do filme : ser livre. Existem muitas cenas antológicas, e até o dia de hoje, muitas imagens impressionam pela sua estilização. Um filme de fato pioneiro, e dizem, ser o precursor do Movimento do cinema novo tcheko, de onde saíra, Milos Forman e Vojtech Jasný ( da obra-prima "Um dia, um gato", também uma metáfora sobre o regime comunista e a sua opressão). O grande trunfo do filme é o trabalho das atrizes Ivana Karbanová e Jitka Cerhová, absolutamente entregues às personagens. É uma aula de interpretaçao, e todos os atores deveriam assistir ao filme e entender o significado do termo "Liberdade de criação". Recentemente, a cineasta grega Athina Tsangari realizou "Attemnberg", premiado em vários festivais, e que provavelmente se inspirou em "As pequenas margaridas". As atrizes interpretam muito no estilo do filme tcheko, provando o quanto o filme continua sendo importante para os cineastas contemporâneos. Outro ponto alto do filme é a edição de som, criando ru;idos e elementos sonoros totalmente estranhos, fazendo o espectador "perceber" um outro filme ali presente.

Sangue azul

"Sangue azul", de Lírio Ferreira (2014) Vencedor de prêmios no Festival do Rio ( Filme, diretor e ator coadjuvante), mais fotografia em Paulínia e no Grande prêmio para Mauro Pinheiro Jr, "Sangue azul" é um belíssimo filme totalmente rodado em Fernando de Noronha. As cores do circo, a luz do sol, a noite, os neons da balada, tudo parece mágico. Pedro ( Daniel de Oliveira) é funcionário de um circo, que aporta em Fernando de Noronha. Ele é o Homem bala. Pedro nasceu ali, mas sua mãe fez com que ele fosse embora do local, por um mistério que só saberemos ao longo do filme. Mulherengo e bicho solto, Pedro tenta encontrar uma forma de se reinserir na região e às pessoas de sua família: sua mãe ( Sandra Corveloni) e sua irmã (Carol Abras). Com um elenco repleto de grandes nomes ( Matheus Nachtergaele, Millen Cortaz, Laura Ramos, Paulo Cesar Pereio, Ruy Guerra), "Sangue azul" tem momentos muito bons de dramaturgia, mas a sua longa duração e o excesso de personagens que acabam não se desenvolvendo melhor acaba tirando o foco principal do filme, que é o conflito de Pedro com o seu passado. Muitas cenas de apresentação circense ( as cenas são muito bem filmadas) também, ajudam a dispersar a narrativa. Mas a qualidade técnica do filme é tão intensa, que no final me senti absorvido. O que talvez tenha prejudicado a minha melhor observação quanto ao filme, foi o fato de eu ter assistido a "Órfãos do Eldorado"antes. Em Órfaos", Daniel de Oliveira tem uma trajetória muito semelhante. Ele retorna ao seu logar de origem e tenta resolver fantasmas do passado, que envolvem um relacionamento conflituoso com a sua irmã. No meio de "Sangue azul", pensei: "O conflito é o mesmo do outro filme". No elenco, destaque total para Millen Cortaz e Romulo Braga por uma corajosa e visceral cena no desfecho.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Fome de poder

"The founder", de John Lee Hancock (2016) Quem iria ao cinema assistir a um filme sobre a fundação das Lojas Macdonald's? Todos iriam pensar: "ah, mas a MAcdonald's está bancando o filme para dizer ao mundo o quanto eles são legais.". Robert D. Siegel, roteirista que escreveu entre outros, "O lutador", evitou o apelo de puro Merchandising e resolveu falar sobre pessoas ambiciosas X pessoas sem tino para comércio. E faz isso brilhantemente no roteiro. O filme em si é didático e convencional, mas o trabalho de Michael Keaton é tão fantástico, que acaba absorvendo qualquer falha do filme. No início dos anos 50, o vendedor ambulante Ray Kroc ( Keaton) viaja de cidade em cidade para vender eletrodomésticos para comerciantes. Ao se deparar com uma loja de hamburguer em Missouri, chamada MAcdonald's, ele se surpreende com a rapidez e o aparato de infraestrutura do lugar, diferente de tudo o que ele já havia visto. O estabelecimento pertence a 2 irmãos, de sobrenome Macdonald's. Ray, fascinado, propõe aos irmãos vender uma franquia em outros estados. Ma sos irmãos, gananciosos e com pouco tino para negócios, fazem um contrato onde Ray ganha muito pouco. Ray faz um empréstimo no banco e bota sua casa para hipotecar, mas aos poucos vai ganhando espaço no mercado, até colocar a Macdonald's como 1a franquia da América. Mas seus problemas estão apenas começando. Americanos amam histórias de loosers que venceram na vida. Aqui é mais um exemplo, e com o resultado que todos já conhecem. Segundo a cartela final do filme, 1% da população mundial consome diariamente lanche do Macdonald's. É um filme obrigatório para quem quer se motivar a criar seu negócio e mais, saber manter com muito sucesso e dedicação. Os diálogos são muito bons, e too o elenco é ótimo, com destaque para Laura Dern ( fazendo a esposa de Ray) e os atores que interpretam os irmãos. A fotografia , direção de arte e figurino são primorosos. E vale bastante como curiosidade. Saber como foi formado a logo do Macdonald's, já vale como aula para publicitários e diretores de arte.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Estrelas além do tempo

'Hidden figures", de Theodore Melfi (2016) Baseado em uma incrível história real, "Estrelas além do tempo" reúne um elenco fabuloso às voltas com segregação racial e corrida espacial nos anos 60. O filme vai dos anos 20 a 60, e acompanhamos a história de mulheres negras gênias na matemática, que por questão da forte segregação racial nos Eatados Unidos, trabalhavam em uma sala isolada e longe dos outros funcionários da Nasa. Katherine ( Taraji P. Henson, da nova versão de "Karate kid"), Dorothy ( Octavia Spencer, de "Histórias cruzadas") e Mary (Janelle Monáe) são amigas negras, independentes e que almejam subir na vida. Mas o ambiente masculino e segregador aonde trabalham, na Nasa de 1960, as impede de querer almejar um sucesso maior. Mas aos poucos, todos vão percebendo o quanto essas mulheres têm a oferecer e a ajudar o Governo a segui adiante na corrida espacial, fazendo uma grande alusão à Guerra fria contra a Rússia. O filme tem uma estrutura narrativa toda calcada em cima do melodrama: uma das mulheres é viuva e precisa cuidar do trabalho e de suas 3 filhas; a outra é casada com um negro simpatizante do movimento dos Panteras negras, e a terceira é também viúva que sonha em se promover como supervisora, mas a sua chefa, Vivian (Kirsten Dunst), impede de qualquer jeito. Mesmo sabendo que o filme é baseado em história real, fiquei pensando o quanto que os roteiristas ficcionalizaram na histórias dessas mulheres, pois muita coisa aconteceu meio que por sorte e pela intromissão do Coronel Al Harrison (Kevin Costner), que com o seu bom coração, foi abrindo aos poucos um espaço para que essas mulheres exercessem seus papéis independente de cor e de sexo. O filme é emocionante e a gente torce o tempo todo pelas heroínas. O que me incomoda como dramaturgia é que nos filmes americanos de segregação racial, todo mundo é vilão. A trilha sonora e a produção são do cantor pop americano Pharrel Willians. É um filme que acaba sendo óbvio, mas bem dirigido e com belas imagens. Tecnicamente, é primoroso: fotografia, edição, direção de arte e maquiagem. Ah, e 20 minutos a menos teria sido mais interessante. Quem amou "Histórias cruzadas", vai adorar esse filme.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Vidas secas

"Vidas secas", de Nelson Pereira dos Santos (1963) Vencedor de um prêmio especial em Cannes 1964, "Vidas secas"é a adaptação do livro de Graciliano Ramos. O filme narra a tragédia do homem do sertão, em sua luta diária por um pedaço de terra produtivo, dignidade, água e trabalho. Fabiano, Sinhá Vitoria, os 2 filhos pequenos, Baleia ( a cadela) e um papagaio começam o filme andando por um sertão sme fim, na esperança de encontrar um lugar para se assentarem. Com fome, acabam matando o papagaio para comer. No caminho, encontram uma fazenda abandonada. Com a chegada da chuva, o dono da fazenda volta com seu gado e Fabiano ;he pede um emprego como vaqueiro. Sinhá Vitoria tem um sonho: juntar dinheiro para comprar um colchão de couro e poder dormir que nem gente. A cadela Baleia é a grande personagem do filme. Ela testemunha tudo, quieta no seu canto, observando a tragédia que vai se abatendo na família que a adotou. "Vidas secas" é considerado um dos filmes chaves do movimento do Cinema Novo. Com uma ousada fotografia estourada de Luiz Carlos Barreto, toda em preto e branco e sem uso de filtros, o filme também chama atenção por sua trilha sonora dramática. Nelson Pereira filma a tudo com um olhar documental. Não tem pressa, e sua câmera fica ali, como voyeur masoquista, dando closes no sofrimento da família. Átila Iório e Maria Ribeiro, como Fabiano e Sinhá Vitória, estão esplendidos. é um filme que nos deixa triste, ainda mais considerando que 503 anos depois, tudo continua igual no sertão nordestino, muitas famílias sofrendo sem água e sem assistência, desempregados, com crianças sem estudo. A cena final, com o destino de Baleia, é das mais cruéis da história do cinema, de deixar qualquer um arrasado. Clássico obrigatório, foi o único filme brasileiro a ser indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais em uma cinemateca.

Stalker

"Stalker", de Andrei Tarkovsky (1979) O que sempre me chamou atenção nesse clássico de Tarkovsky nunca foi o filme em si, mas sim, os bastidores da produção, de dimensão trágica. O filme foi lançado em 1979, mas os seus protagonistas, Tarkovsky e parte da equipe técnica vieram a falecer vítimas de câncer. Parte do filme foi rodado em uma Usina desativada na Estônia, e conclui-se que ela ainda estava radioativa. Assistir ao filme, com essa informação, torna o filme ainda mais forte do que ele é. Todos aqueles cenários, abundando em água contaminada, escorrendo por cima dos atores, é plasticamente estonteante, mas me passou uma impressão estranhíssima. Fiquei triste pelo destino cruel dos envolvidos, em prol do bom cinema. O filme em si, é um grande mistério. Ambientado em um lugar e tempo incertos, acompanhamos 3 personagens. Stalker, professor e escritor. Um meteoro atingiu uma região, e nesse local os militares impediram o acesso de pessoas. Acredita-se que nesse local aonde caiu o meteoro, chamado de "A zona", existe um quarto que realiza desejos. Stalker é o guia que leva curiosos que pagam para visitar tal lugar, enfrentando o perigo de serem mortos pelos militares e se perderem. Contra à vontade de sua esposa, Stalker aceita o dinheiro do professor e do escritor e os leva até a Zona. Esteticamente o filme trabalha com o preto e branco ( sépia) e o colorido. Todo o mundo real é em preto e branco, melancólico, depressivo. Quando chegam na Zona, tudo fica colorido, vivo. Impressiona as locações, detonadas porém imbuídas de uma beleza plástica impressionante com as dunas de areia, o túnel aterrorizante, as câmeras, os corredores, os lagos sujos... Tarkovsky já virou jargão cinematográfico: planos longos, travellings, muitos planos de paisagem..e a eterna aura de que tudo aquilo emana uma aura espiritual, metafísica...amplamente copiada por Inarriru, Terrence Malick e tantos outros cineastas e fotógrafos ( Labezky). "Stalker" é um filme para se rever sempre, mesmo que sua duração e seu ritmo extremamente lento seja um empecilho. Muitas metáforas podem ser trabalhadas, principalmente a visão religiosa sobre o significado da Zona, do Stalker e principalmente, da cena final, com a filha do Stalker movendo os copos com a força do pensamento. Takovsky nunca foi literal, querendo dar explicação para tudo o que acontece na tela, deixando o espectador sentir e criar a sua própria percepção das coisas.

Pickpocket- O batedor de carteiras

"Pickpocket", de Robert Bresson (1959) Lançado em 59, "Pickpocket" é um dos filmes mais famosos de Robert Bresson. A precisão e detalhamento de metodologia dos roubos de carteiras, relógios e dinheiro é tão impressionante, que na Finlândia o filme ficou proibido por muito tempo, para evitar que as pessoas usassem o filme como estudo para roubos. Pois a direção brilhante de Bresson arquiteta planos aliado a uma edição criativa e inteligente para fazer o espectador um voyeur das cenas de roubos praticados pelo ladrão Michel. Ele é um desempregado que mora em Paris, e diante da falta de perspectiva de encontrar algo que o satisfaça, ele resolve se entregar ao crime. Ele se alia a um grupo de batedores de carteira que lhes ensinam a arte do latrocínio. Existe de início um conflito moral de Michel, se deve ou não roubar, mas a partir do primeiro roubo, ele se sente poderoso. Há uma discussão em determinado momento do filme que diz que pessoas inteligentes e talentosas poderiam estar livres para fazer o que quisessem, diferente das pessoas comuns, que deveriam se impôr a regras. É como se Michel, que faz parte da classe pobre, quisesse dar um argumento para poder subir na hierarquia, mesmo sabendo que na sua rota de vida, isso seria impossível. Bresson é famoso pelo seu método de direção de atores: ele simplesmente os proíbe e atuar. Em boa parte de seus filmes, os personagens são apáticos e sem expressão. Bresson chama seus atores de "modelos", pois estão ali para dar vida e dizer suas falas, mas jamais se emocionar. São manequins. Esse método polêmico faz com que a atenção do espectador se dê pelo texto e pela direção de cena, e não focar nos atores. O diálogo final é dos mais lindos para mim, e nunca me esqueci: preso, ele diz à mulher amada, cada um de um lado da cela: 'Sabe Jeanne, estranhos caminhos tive que percorrer, para chegar até você." A cena clipada do roubo dentro do trem, todo em closes de mãos, é primorosa e uma aula de direção e edição.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Vista de uma luz azul

"View from a blue moon", de Blake Kueny (2015) Documentário obrigatório para operadores de drone, sub-aquáticas, fotógrafos e cinegrafistas de imagens de surf, "Vista de uma lua azul" acompanha o jovem surfista John Florence por várias regiões do mundo, pegando as melhores ondas, entre elas África, Oahu ( Hawai) e Rio de Janeiro. Aliás, fazia tempo que eu não via imagens tão bonitas da cidade carioca. O filme foi todo rodado em 4K, fornecendo imagem em altíssima definição. As imagens são todas estilizadas, abusando de câmeras lentas, marcação de cor e muitos filtros. Não importa: o filme foi considerado por especialistas, o melhor filme sobre surf existente. Eu não sou fã do esporte, mas fiquei inebriado por quase 1 hora ) o filme tem 58 minutos), testemunhando imagens impressionantemente lindas, acompanhadas de uma trilha sonora muito foda, Top list de qualquer balada lounge.

Liliam, a suja

"Liliam, a suja", de Antonio Meliande (1981) Um dos mais obscuros filmes realizados na Boca do Lixo, "Liliam, a suja" tem um roteiro ousado para a sua época. Cansada de ser assediada sexualmente pelo patrão, a secretária Lilian sai de noite travestida de Liliam, uma serial killer que seduz homens e os mata depois de fazer sexo com eles. O filme é datado, mas por isso mesmo, uma delícia de se assistir. Liliam mata os homens sem piedade, matando com navalha, tiros, facada, veneno e tudo o que lhe vier na mente. Sua mãe ficou paraplégica pois quando Lilian era criança, seu pai batia tanto na mãe que ela se acidentou. Lilian cresceu com sede de vingança contra o machismo. A atriz Lia Furlim manda ver como a protagonista, e se tivesse sido descoberta por Tarantino, com certeza estrelaria algum de seus filmes. Sexy, furiosa, enraivecida, Liliam manda ver na hora de matar suas iscas. O filme mostra uma São Paulo decadente do início dos anos 80 ( o filme é de 81), com regiões undergrounds repletos de inferninhos. "Liliam, a suja", é considerado um clássico do gênero erótico, mas mais do que isso, um alerta para a questão do assédio sexual. Como curiosidade, o título vem da música de "Os titãs", que começavam na época como "Titãs do I6e Iê" e cederam a música para o filme, em versão instrumental.

Spa Night

'Spa night", de Andrew Anh (2016) Mais do que ser um Filme de temática Lgbts, 'Spa night" fala sobre imigrantes que vão para os Estados Unidos com um sonho de independência financeira, e sobre a pressão que um jovem sul coreano sofre da sociedade e de seus pais para cumprir com suas obrigações culturais. David ( Joe Seo, vencedor dos Prêmios de Melhor ator em Sundance e Outfest) é um jovem americano de descendência sul-coreana. Seus pais migraram para Los Angeles e abriram um restaurante. A família é tradicional, frequentam a igreja e os eventos sociais da comunidade. Os pais de David querem que ele faça faculdade e namore uma garota. David no entanto está perdido: não gosta de estudar, e é um gay enrustido. O restaurante da família é obrigado a fechar e todos ficam desempregados. David, para ajudar a família, trabalha d enoite em uma sauna masculina, que é uma fachada para pegação gays. Aos poucos, ele vai descobrindo os fetiches que rolam no ambiente e vai se sentindo seduzido por um mundo até então desconhecido. O filme é um belo drama melancólico, que traz performances sensacionais do trio principal: O jovem Joe Seo e os atores que interpretam os seus pais. O ritmo do filme é bem lento, pois a narrativa do filme é quase um documental da rotina dessa família que vai se deteriorando financeiramente e moralmente ( os pais temem que a comunidade saiba que eles perderam o restaurante e procuram manter as aparências). A fotografia e a trilha sonora ajudam a compôr essa narrativa sóbria e fria, mostrando a rotina de uma sauna gay de forma fetichista, com detalhes em corpos e um olhar totalmente voyeurista. Impossível não associar esse filme a "Banquete de casamento", de Ang Lee, que trata dos mesmo temas, porém no filme de Lee existe uma fina ironia que se esconde nos personagens. Aqui, é só tristeza e lamentação.

Tudo sobre Vincent

"Vincent n'a pas d'écailles", de Thomas Salvador (2014) Escrito, dirigido e protagonizado por Thomas Salvador, "Tudo sobre Vincent" é um drama fantástico que se utiliza da metáfora do super-herói para falar sobre isolamento social e timidez. Thomas está desempregado, não tem amigos, família, nada. Mas Vincent tem um segredo: ele tem super poderes. Quando ele se molha ( nadando, ou molhando partes de seu corpo), ele adquire uma força estrondosa, além de nadar velozmente. Um dia, Vincent conhece uma jovem, Lucie, que dá atenção a ele. Vincent, encantado, mostra para ela os seus poderes. Lucie e Vincent se apaixonam. Mas um incidente com um imigrante em uma bico numa obra que Vincent conseguiu o faz ser perseguido pela polícia. Imaginem um filme de super herói onde o máximo de ação é o protagonista correndo pelas ruas ou nadando, fugindo da polícia? Pois "Tudo sobre Vincent"é assim. Um filme curto, 78 minutos, mas com um roteiro simplório demais, onde quase nada acontece. Metade do filme ele passa nadando, a outra metade correndo da polícia. O pouco que resta mostra o relacionamento dele com Lucie. O filme tem um ritmo muito arrastado, o protagonista não tem carisma nenhum ( bom, o personagem é assim né, mal fala ou reage). O filme foi lançado comercialmente no circuito e praticamente ninguém o viu. As cenas de efeito, modestas, até que funcionam. Mas é só. Faltou simpatia ao filme e a gente querer torcer pelo protagonista.

Esteros

"Esteros", de Papu Curotto (2016) Drama lbtgs vencedor de 2 prêmios em Gramado 2016 ( Melhor filme juri popular e Prêmio do juri da Mostra latina), 'Esteros" é uma co-produção Argentina/Brasil e tem um olhar cor de rosa sobre um drama de 2 amigos que são apaixonados desde a infância, mas nunca conseguiram expressar o amor um pelo outro. Matias e Jerônimo são melhores amigos e moram na cidade de Paso de Los Libres e faz fronteira entre Brasil e Argentina. Os dois são inseparáveis, e sentem uma atração sexual mútua, mas o medo que os familiares e amigos saibam os afasta. Matias acaba se mudando com sua família para o Brasil. 10 anos depois, Matias retorna com sua namorada brasileira para o Carnaval da cidade, e acaba reencontrando Jeronimo. Os dois precisam agora lidar com esse passado que teima em não ser apagado. Drama romântico, que tinha tudo para ser o filme de cabeceira dos adolescentes gays dessa geração, não fosse ele com um ritmo extremamente lento e com um roteiro que só decide tomar partido faltando pouco para acabar. Cada década tem o seu clássico, e o que me acompanhou por um bom tempo foi "Delicada atração", filme inglês dos anos 90. "Esteros" tem um roteiro simples e sem surpresas, e dois atores simpáticos. No elenco, 2 atores brasileiros fazem participação: Renata Calmon e Felipe Titto. A falta de maior ousadia do filme talvez tenha sido uma opção do diretor para não chocar a sua platéia e torná-lo mais digerível para um grande público.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Br 716

"Br 716", de Domingos Oliveira (2016) Premiado com 4 prêmios em Gramado 2016 ( Filme, diretor, atriz coadjuvante e trilha sonora), "Br 716" é uma comédia leve e descompromissada sobre um grupo de amigos inseparáveis que viveram a delicia de ser jovens , livres, leves, soltos e cheios de sonhos, muitas vezes frustrados. Felipe (Caio Blat) é Felipe, alter ego de Domingos Oliveira, um aspirante a escritor, mas que vive momentos de conflito pessoal e profissional. Em seu apartamento na Barata Ribeiro 716, ele promove festas sem hora para acabar, para celebrar a vida com seus amigos. e mal sabiam eles que paralelo, se armava um golpe militar no ano de 1964. Bebidas, mulheres, paixões mal resolvidas. os clichês da vida boêmia. O viés político está na figura de um paulista (Sergio Guizé), que anuncia aos amigos um levante popular para evitar uma possibilidade de levante militar, mas poucos lhe dão atenção. O filme começa e termina em cores, mas a história mesmo é apresentada em Preto e branco. Por conta do baixo orçamento, Domingos optou pela estética de planos longos, com usos de lentes grandes angulares. Os atores estão ótimos, e provavelmente rolou muito improviso. O filme é daqueles para se assistir com uma galera e após a sessão, discutir a importância do engajamento político ou não. Domingos, goste-se ou não de seus filmes ( sou fã de seus primeiros filmes) é uma voz que luta pela produção de filmes independentes realizados com pouca grana e muita disposição dos amigos e equipe técnica para realização.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Passageiros

"Passengers", de Morten Tyldum (2016) Diretor norueguês, famoso por ter dirigido "O jogo da imitação" e "Headhunters", Morten Tyldum entra em Hollywood através desse emocionante romance de ficção científica e ação. Antes de assistir ao filme, eu havia lido um artigo escrito por uma mulher que simplesmente destruiu o filme, acusando-o de divulgar a cultura do estupro. Fiquei com a matéria na cabeça e enquanto assistia ao filme, esse dado toda hora vinha e voltava na minha mente. Entendo o ponto de vista da articulista, mas o roteirista, espertamente, cria uma reviravolta na história, o que justifica qualquer ato executado pelo protagonista. No futuro, uma nave espacial, Avalon, segue da Terra rumo ao planeta Homestead. A viagem dura 120 anos, e por conta disso, toda a tripulação e 5000 passageiros hibernam, para acordar apenas quando faltar 4 meses para chegar ao destino. Uma chuva de meteoros não esperada atinge a sala de controle e a cápsula onde está o passageiro Jim ( Chris Pratt) entra em pane, acordando-o. Qual a sua surpresa ao descobrir que ele acordou 90 anos antes do destino, sem poder hibernar de novo. Aprendendo a lidar com a solidão, Jim permanece isolado por 1 ano, até que descobre que outra cápsula deu pane e abre, surgindo a escritora Aurora ( Jennifer Lawrence). Repleto de reviravoltas em suas trajetória, esse romance com a ótima química de Chris Pratt/Jennifer Lawrence e Michael Sheen ( que interpreta o robô Arthur) tem momentos de drama, ação, suspense e adrenalina. Os diálogos são saborosos e ver na tela dois deuses da fotogenia seduz o espectador que vai ao cinema para assistir a um pipocão. No fundo, o espectador vai descobrir que ele acabou de assistir a um pipocão filosófico e existencialista. Algumas referências se outros filmes, como o óbvio "Náufrago", "2001", "Gravidade" e "O iluminado" pululam na tela grande. Não dêem ouvidos às críticas americanas que falaram mal do filme. É digno e bom passatempo.

Marguerite e Julien

"Marguerite et Julien", de Valérie Donzelli (2015) A cineasta e roteirista Valérie Donzelli foi a sensação de Cannes em 2011 com o filme familiar 'A guerra está declarada", sobre um jovem casal que luta pela vida de seu filho. Agora, em 2015, ela exibiu na Competição oficial do mesmo Festival de Cannes "Marguerite e Julien", um filme polêmico pelo conteúdo e pela opção estética que a cineasta resolveu dar ao filme. Baseado na história real de Marguerite e Julien, irmãos aristocratas que se apaixonaram e mantiveram um relacionamento amoroso foram banidos pela sociedade e a Igreja, e no final foram presos e decapitados. Isso aconteceu em dezembro de 1603. Valérie resolveu dar uma de Sofia Coppola e trouxe modernidade ao seu filme de época. Em "Maria Antonieta", Sofia Coppola incluiu uma trilha sonora pop e elementos de cena que não eram de época, como os tênis All Star. Valerie fez o mesmo: incluiu uma trilha pop, um helicóptero e um carro nas cenas. Além disso, abusou da linguagem moderninha: usa efeito de lente íris ( aquela que fecha um círculo na imagem até desaparecer) e em várias cenas, temos os atores fazendo "Manequim challenge", ou seja, todo mundo congelado até "criar vida" em determinado momento. Tudo soou muito estranho e fora do tom, o que é uma pena, pois o tema é bastante controverso e merecia ter a atenção toda voltada para ele. O ritmo do filme é arrastado, mesmo seguindo uma cartilha de um grande melodrama. O trabalho da dupla central de atores é ótimo, com destaque para Anaïs Demoustier, que trabalhou em "Uma nova amiga", de François Ozon, e "Elles", com Juliette Binoche.